Krahô
Anne Vilela

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Krahô

Os Krahô são conhecidos pelo uso do maracá, um instrumento feito do fruto cuité, utilizado pelos homens para dirigir o canto das mulheres. A música vocal é um dos aspectos mais elaborados e marcantes da vida ritual e artística dos Krahô. Outra característica da etnia é a tradição dos hotxuás, que são os palhaços sagrados. 

A etnia Krahô vive no nordeste do Estado de Tocantins, na Terra Indígena Krahô, localizada nos municípios de Goiatins e Itacajá, entre os rios Manoel Alves Grande e Manoel Alves Pequeno, que são afluentes da margem direita do Rio Tocantins. A vegetação predominante é o cerrado, com presença de estreitas florestas que acompanham os cursos dos rios. A floresta que acompanha o Rio Vermelho, no entanto, é mais larga e compõe o limite nordeste do território indígena.

O povo Krahô soma dois séculos de contato com os brancos e, nesse tempo, tem vivido reviravoltas em sua situação, ora estão aliados aos fazendeiros, ora sofrem por ataques destes, como o ocorrido em 1940. Na década de 30, o etnólogo Curt Nimuendajú (http://pt.wikipedia.org/wiki/Curt_Nimuendaj%C3%BA) perguntou aos Krahô o significado do nome e obteve a resposta “pêlo (hô) de paca (cra)”. Trinta anos depois, alguns indivíduos da própria etnia revelaram que discordavam da tradução, afirmando que Krahô era um nome de origem civilizada.

Sendo assim, a grafia “Krahô” seria o resultado de uma interpretação tortuosa dos sinais diacríticos utilizados por Nimuendajú. Os indivíduos da etnia Krahô se autodenominam Mehim, um termo que no passado era provavelmente também aplicado aos membros de outros povos que falavam a língua deles e viviam de acordo com a mesma cultura. Esse conjunto de povos recebe o nome Timbira.

Estimativas apontam que, no início do século XIX, os Krahô totalizavam entre três e quatro mil indivíduos. Em 1852, o número passou para 620, devido a mortes causadas pelas epidemias de 1849-1850. Depois de um período escasso em termos de população, em 1989, os Krahô alcançavam o número de 1198. Dez anos depois, o pesquisador Hélder Ferreira de Sousa publicou que a etnia estaria chegando à marca de dois mil membros.

Em consequência desse crescimento, o número de aldeias também subiu. No início do século XX, eram três. Quando Nimuendajú visitou a etnia, nos anos 30, uma delas havia se dividido em duas. O antropólogo Julio Cezar Melatti (http://pt.wikipedia.org/wiki/Julio_Cezar_Melatti) contabilizou seis aldeias, em 1962. No início do século XXI, foram contadas entre 18 e 20, conforme dados citados por Hélder Ferreira Sousa, que não chegou a visitar todas elas.

Histórico

O contato dos Krahô com os “civilizados” começou no início do século XIX, quando entraram em conflito com as fazendas de gado que avançavam do Piauí para o sul do Maranhão. Na época, eles viviam perto do rio Balsas, afluente do Parnaíba. Após este primeiro espasmo, a relação com o homem branco passou a ser pacífica. No entanto, não era assim com todas as etnias vizinhas. Quando se aproximaram da margem do Tocantins, passaram a ajudar o fundador de São Pedro de Alcântara (hoje a cidade de Carolina, no sul do Maranhão) a combater e escravizar outros grupos. Foram definitivamente transferidos para o Tocantins quando os fazendeiros se livraram dos outros grupos e se cansaram dos roubos de gado que os Krahô lhes faziam. Assim, na segunda metade do século XIX, se tornaram vizinhos dos Xerente, até começarem a se deslocar na direção nordeste, onde se fixaram.

Novos conflitos no início da década de 1940 levaram o governo do Estado Novo a pressionar as autoridades estaduais no sentido de se realizar o julgamento dos fazendeiros responsáveis por ataques aos índios. Apesar de terem cumprido a pena em liberdade condicional, foi um dos raros casos em que pessoas foram condenadas por massacres contra indígenas. Além disso, o interventor do Estado de Goiás (Tocantins ainda não havia sido criado) delimitou, por meio de decreto, a terra dos Krahô (homologada pelo Governo Federal em 1990, após a criação do Tocantins, ocorrida em 1988). E o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) passou a atuar entre eles com a criação de um posto. O SPI, no entanto, foi praticamente inoperante, tendo sido substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967.

Ao longo dos anos, os Krahô foram se envolvendo com os povos indígenas vizinhos, o que lhes permitiu alguma forma de articulação política com eles. Mais recentemente, por exemplo, quando os Apinajé estavam com suas terras ameaçadas de invasão pelos civilizados, índios Krahô e Xerente compareceram à região ameaçada para reforçar as posições dos parentes índígenas.

Organização Social

As aldeias Krahô seguem o padrão de disposição das casas característico dos Timbira. Elas vão ao longo de uma larga via circular, sendo cada qual ligada ao pátio central por um caminho radial. Cada casa normalmente abriga mulheres que ali nasceram e os homens que, deixando as moradas de suas mães, vão para as casas das esposas. O número de moradores da casa não pode aumentar indefinidamente.

Geralmente, após a morte do sogro, um dos genros fica com a casa, enquanto os demais, acompanhados de suas esposas e filhos, constroem outras ao lado da mais antiga. Isso permite a distinção de três grupos de residência, um encaixado no outro. O menor deles é a família elementar, formada pelo casal e seus filhos. As famílias elementares abrigadas pelo mesmo teto constituem o grupo doméstico, coordenado pelo sogro. Por último, uma casa, junto com as contíguas a que deu origem, constitui um segmento residencial. A organização das casas e famílias não tem um líder bem definido. No entanto, o segmento tem duas marcas que o torna bem visível: as casas mantêm sua posição segundo os pontos cardiais mesmo após a aldeia mudar de lugar e as pessoas que nascem em seu seio não se casam entre si.

Outros grupos são visíveis nas atividades rituais no pátio fora das casas. As reuniões masculinas diárias realizadas no pátio central são coordenadas por dois “prefeitos”, ambos pertencentes à metade sazonal correspondente à estação em curso (pode ser a seca ou a chuvosa). Diz-se que só uma metade toma decisões durante a estação. Cada uma dessas metades dispõe de um conjunto de nomes pessoais; homens e mulheres pertencerão a uma ou à outra, de acordo com os nomes pessoais que receberem.

Os meninos jovens, ao deixar a infância, são reunidos numa classe de idade, sob um nome coletivo, que é incluída na metade oriental ou ocidental do grupo. Estas metades podem ser chamadas de etárias e participam de vários ritos, um deles era o Pembjê ou Ikrere, um rito de iniciação não mais realizado. Os “prefeitos” que coordenam as reuniões numa mesma estação devem ser um da metade etária oriental e outro da ocidental.

Há outros grupos que não têm membros permanentes. Eles atuam nas diferentes variedades do rito de Pembcahàk e de outros do ciclo da iniciação. A escolha dos membros se faz antes de cada realização do rito a que o grupo esteja associado. São seis pares. Em cada qual, uma metade tem nome de animal alado ou peixe e a outra de mamífero ou ave terrestre.

As mulheres só se incluem como membros com o mesmo critério que os homens nas metades sazonais. Nos outros pares, as solteiras ficam na metade do pai e as casadas na do marido. Embora os homens sejam os participantes por excelência dos grandes ritos, as metades e o grupo de rapazes em iniciação quase sempre têm uma ou duas moças associadas.

Para os Krahô, o indivíduo está genuinamente ligado ao pai, mãe, irmãos, meio-irmãos e filhos por um laço corpóreo de tal natureza que determinados atos (sexo, matar cobra, fumar, falar alto) e o consumo de certos alimentos podem afetar um daqueles parentes que estiver passando por uma crise (período pós-natal, doença, picada de cobra).

Rituais e hotxuás

São muitos os ritos Krahô. Alguns são mais breves, relativos às crises individuais, como fim de resguardo pelo nascimento do primeiro filho, fim de convalescença, última refeição do falecido etc. Outros são promovidos por iniciativas coletivas ocasionais, como trocas de alimentos e serviços. Existem ainda os ritos relacionados ao ciclo anual e agrícola, como os que marcam a estação seca e a chuvosa, o plantio e a colheita do milho e a colheita da batata-doce. Há também os que fazem parte de um ciclo mais longo que o anual, como o da iniciação masculina.

Os hotxuás, que são os palhaços sagrados da etnia, representam um elemento de equilíbrio para os índios Krahô. Segundo o ator Ricardo Puccetti, o hotxuá não é um personagem e sim uma função social que alguns escolhidos têm o privilégio de possuir. Esta função é propagada pelo nome, considerada o maior bem que um Krahô pode possuir. Sendo assim, quando um recém nascido recebe o nome de um hotxuá, seja do pai, do tio ou de um amigo da família, a criança será hotxuá.

Os palhaços desenvolvem um importante papel no cotidiano da comunidade. Sempre voltados ao riso, atuam em situações do dia a dia, brincando com as possibilidades de ver a vida sob outros ângulos. Os demais membros da comunidade nutrem pelos hotxuás um grande respeito e afeto. Maquiados com tintas extraídas do urucum, do jenipapo e de pó de giz, os hotxuás são palhaços por essência; têm disponibilidade para o jogo, a brincadeira e o entretenimento.

Saiba mais

http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kraho

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