Abu Bakr
Vivian Scaggiante

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Abu Bakr

Durante a oficina de percussão no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, Abu Bakr mostrou as diferenças entre os tipos de tambores, contou muitas histórias e colocou os participantes para praticar o som de diferentes tambores.  Dununs, djembe, tama e sabá foram os instrumentos usados por Abu para passar o principal sentido em se aprender a tocar um instrumento: entender sua linguagem e seu ritmo.

Esse baiano tem a cultura africana como base de sua formação artística. Além de tocar, ele fabrica os próprios tambores, o que, segundo ele, ajuda no aprendizado. "O segredo da percussão é saber como ela funciona", explica Abu, que destaca a importância de se conhecer a história e trajetória dos instrumentos.

A oficina teve início com a tama, um pequeno tambor colocado debaixo do braço que é tocado com uma baqueta curva. "Esse instrumento é muito pessoal, eu não costumo emprestar porque se usa debaixo da axila", brinca Abu. Feito com pele de cabra, ele é também chamado de tambor falante. Abu começa então a tocar a tama no ritmo de algumas frases. "Como vai você?", canta ele enquanto mostra o som tirado do pequeno tambor.

Enquanto continuava explicando sobre a tama, Abu pegou uma criança que estava sentada e colocou no braço para mostrar como fazia para tocar o instrumento quando tinha que cuidar das filhas. "Tocar com elas no colo ajudou a fortalecer meu braço e hoje consigo tocar de uma forma que poucas pessoas conseguem".

Ao final da explicação sobre cada tambor, os participantes da oficina podiam tocar os instrumentos. Alguns levaram seus próprios tambores, outros usaram os de Abu. O som, que começava tímido, tomava conta da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Os pés batiam no chão discretamente no ritmo da música e quem estava sentado se levantou para dançar.

No ritmo dos tambores, Abu aproveitou a grande festa que se formava e ensinou uma música em djula, língua de Burkina Fasso, país da África. Batendo palmas, todos acompanharam a canção. "Someteira iugo baulaira (Por que você fala mal de mim inimigo, se eu não te fiz mal?)", dizia a canção.

Música com alma

Abu mostrou qual a melhor maneira de se aprender a tocar um instrumento. Tentar tirar o som do tambor a partir do ritmo das palavras que serão cantadas. "Quando a gente toca desse jeito, pode tocar qualquer música". A relação entre a música, a alma e o corpo é o que, segundo Abu, dá a força para tocar, além de valorizar a troca de energia e de experiência com os participantes.

Abu Bakr ensina os diferentes tipos de batuque.

A disciplina no aprendizado da percussão é fundamental, por isso Abu aconselhava: "Quanto mais elogios você receber, mais tem que estudar". Na hora de conversar com os participantes, Abu pedia para que ninguém tocasse nada. "Só as crianças podem", avisava ele. Neste momento só ele falava e todos se divertiam com suas histórias.

A participante Denise Macedo, de Goiânia, se surpreendeu com a oficina. "Foi muito além do que eu esperava, eu achei maravilhoso esse envolvimento, com muita informação". Já Huapi Lima, mãe da garotinha que participou da oficina, elogiou a maneira que Abu conduziu o trabalho. "Foi muito bom porque ele, além de tocar, explica a cultura e leva uma vivência pra quem participa".

O baiano, cujos pais são de Beni, na África, já passou por vários países daquele continente, onde aprendeu a tocar e fabricar alguns instrumentos. Esse resgate da cultura africana é buscado por Abu que destaca também a importância de se manter as tradições locais, como a catira, em Goiás. "Eu aprendi a valorizar a existência da música", conta Abu.

Além de ministrar oficinas de percussão, Abu participa da banda chamada Afro Mestiço. Este projeto, que teve início em 97, reúne também um hindu, um muçulmano e um judeu, mostrando como é possível unir culturas diferentes através da música.

Depois de quatro horas de oficina, Abu se despediu enquanto tocava. Quem estava ali não queria ir embora para  ouvir o som dos tambores um pouco mais, ou mesmo para saber mais da vida desse baiano. A oficina tinha alcançado seu objetivo e as palavras de Abu iam ser lembradas por todos. "Batuque é um ritmo, não podemos ter vergonha de tocar tambor".

 

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