Lundu de Lezeira
Anne Vilela

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Lundu de Lezeira

A diversidade das manifestações culturais da pequena Comunidade Quilombola de Custaneira, a sete quilômetros do município de Paquetá, no Piauí, surpreende. No vilarejo com 20 casas e 129 moradores, o Lundu de Lezeira, Samba de Cumbuca, Reizado, Roda de São Gonçalo e o Terreiro de Umbanda compõe o repertório entoado por instrumentos de percussão. Um deles é especial: o 'Tambor da Mata'. Seus 70 centímetros de diâmetro emitem um som que ecoa longe. Outra particularidade é um refrigerante feito com milho, caldo da rapadura e farinha. A bebida, chamada de Aluá, tem a função de facilitar a digestão das comidas servidas durante as manifestações, que costumam ser gordurosas.

No Lundu de Lezeira, os lundus são versos recitados de geração em geração, ou elaborados durante a dança, sempre tendo como marca a improvisação e a criatividade. O mestre de cultura popular da comunidade é Arnaldo de Lima, mais conhecido como Naldinho.

O mestre conta que os fazendeiros da região de Custaneira tinham uma obediência rígida ao catolicismo na Semana Santa. Já os seus ancestrais quilombolas, nesse período, na quinta-feira (última ceia) e, principalmente, na sexta-feira (morte de Cristo), ficavam de resguardo do corpo em relação aos excessos, como conta o mestre. "Não se varria casa, não se cortava com faca, não se fazia nada". Ele esclarece ainda que "era um dia livre da negrada, ali na senzala da nossa região". Assim, os negros criaram a roda da lezeira.

"Sexta-feira Santa sem roda de lezeira não é Sexta-feira Santa lá na nossa comunidade", diz Arnaldo. Ele conta que nesse dia especial, "quando nós  fazemos no espaço da comunidade, de barro e areia, de manhã, fica aquela roda como se os bois tivessem trabalhado em um engenho a noite toda". Ele diz que onde se roda a roda nesse dia, o chão 'afunda'.

Refrigerante

A Comunidade Custaneira começa a se preparar três dias antes da roda de lezeira, colocando para fermentar milho, doce da rapadura e farinha, os ingredientes da bebida chamada Aluá. O mestre explica que é um refrigerante para ajudar na digestão da comida muito gordurosa e pesada, que é servida durante a festa, principalmente na Sexta-feira Santa. Apesar de, por questão de tempo, não conseguir produzir a bebida em São Jorge, o mestre conta que em todas as festas realizadas na comunidade o Aluá é preparado.

Instrumentos

"A gente pediu força ao tambor para que ele nos conduzisse até aqui; e que a gente pudesse fazer sem ele o que a gente faz lá nas nossas festas", lembra Arnaldo, também mestre do tambor da mata. Este instrumento segundo ele, é muito grande, o que inviabilizou transportá-lo. A importância do instrumento na dança de roda é grande. "São 70 centímetros de diâmetro, o som do tambor vai longe", lembra. Mas ele não desanima com a ausência do tambor da mata e lembra do pandeiro e do maracá. "Se tiver o instrumento vai, se não tiver, vai também"; e explica que o som produzido na batida dos pés dos irmãos também é fonte de garantia de ritmo na roda.

Dificuldades

Além de mestre de cultura popular, Arnaldo é coordenador do Ponto de Cultura Meu Quilombo e presidente da Associação de Desenvolvimento Rural Quilombola de Custaneira. "Através da nossa organização e luta é que conseguimos avançar para um maior desenvolvimento", explica sobre a importância das articulações culturais.

Desde os 7 anos de idade, mestre Arnaldo aprende a tradição, que é passada de geração para geração na Comunidade Quilombola Custaneira. Além do Lundu de Lezeira apresentado no Encontro, ele expõe a diversidade cultural da comunidade. "Temos o Samba de Cumbuca, Reizado, Roda de São Gonçalo e o Terreiro de Umbanda", diz.

Acesso a terra, educação, trabalho. Essas são as principais dificuldades da comunidade. "Tivemos que fazer um empréstimo e comprar parte de nossa própria terra (200 hectares) para não complicar ainda mais quando a demarcação for realizada", revela.

Arnaldo também faz parte da Coordenação das Comunidades Negras, Rurais e Quilombolas do Piauí. Atua na área de cultura e educação da coordenação, que é composta por 20 membros espalhados por todo o estado. A sua preocupação é com o incentivo à cultura dentro das comunidades remanescentes de quilombola do Piauí.

"Queremos mudar a triste realidade das 148 comunidades quilombolas identificadas hoje no meu estado", revela. E diz que tem muito a ensinar também. "A gente tem desenvolvido, acho que mais que em outros estados", faz o balanço.

 

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