Boi do Seu Teodoro
Delcio Gonçalves

Boi do Seu Teodoro

Do Maranhão para Brasília, o Boi do Seu Teodoro é um dos mais importantes grupos de cultura popular do DF. Fixado na cidade de Sobradinho, o grupo tem como mestre Seu Teodoro Freire, maranhense que residiu no DF de 1961 a 2012, ano de seu falecimento. Em 2013, o Boi do Seu Teodoro completou 50 anos de tradição, que começou a se consolidar em 1963, com a Fundação da Sociedade Brasiliense de Folclore, hoje Centro de Tradições Populares de Sobradinho. A partir do cinquentenário de resistência cultural, o Boi do Seu Teodoro está em processo de inventariado, para ser reconhecido como patrimônio imaterial pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.

Atualmente, o Boi do Seu Teodoro é comandado por Guarapiranga Freire, um dos filhos do Seu Teodoro. Em 2013, durante a passagem do grupo pelo XIII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, três importantes integrantes dessa história de 50 anos falaram sobre o grupo e seu mestre: Dona Maria Sena Pereira Freire, viúva de Seu Teodoro; Aporé Luciano Freire, filho do Seu Teodoro e brincante desde os 5 anos de idade; e Gilvan do Vale, puxador das toadas e membro do grupo há 23 anos.

A chegada do Boi no Distrito Federal

Aporé Freire: Primeiro meu pai levou o boi do Maranhão para o Rio de Janeiro. Onde ele morou no Rio tinha uma colônia maranhense e ele resolveu criar o boi por lá. O pessoal aceitou bem. Meu pai foi convidado a participar do primeiro aniversário de Brasília, em abril de 1961. Ele gostou e resolveu ficar.

Seu Teodoro por trás do Boi

Dona Maria: No Maranhão, o Teodoro trabalhava em umas fábricas estrangeiras que mexiam com barcos, porque antigamente no Maranhão eram só as fábricas que davam renda pro povo. Depois que ele adoeceu, resolveu ir para o Rio de Janeiro. Foi Ferreira Goulart que levou o Boi pro aniversário de Brasília. Quando chegamos lá, fomos trabalhar em algumas granjas, umas léguas pra lá de Sobradinho. Mas só que não deu nada. Lá por Brasília era tudo roça, não tinha nada lá. Era só pé de pau e cerrado. Depois que saímos da granja, ele conseguiu um emprego na Universidade de Brasília como contínuo, que é aquela pessoa mensageira que leva documentos de uma sala pra outra. Ele ficou 28 anos na Universidade.

O Boi sem a presença do Seu Teodoro

AF: A gente leva com responsabilidade. Meu pai sempre levou a sério o que ele queria. A família resolveu absorver e estamos acompanhando. Meu irmão Guará assumiu a responsabilidade agora, como presidente, e eu também ajudo ele. Pra gente, meu pai não está ausente, ele está presente.

Formação do grupo e a família

AF: Tem mais ou menos umas 12 ou 15 pessoas da família que brincam. O grupo todo tem de 75 a 80 pessoas.

DM: Tem uma família enorme aí nesse boi. Fora os conterrâneos do Teodoro, que são maranhenses. Cada vez foi chegando gente que sabia da notícia de que tinha um Boi em Brasília. O Teodoro fazia de tudo. Arrumava uma coisa pra um, uma coisa com o outro. Ele arrumou de sapato a emprego, tudo pelo Boi. Hoje em dia já vem pessoas que estão mais bem de vida. Tem gente no Boi de outras cidades também. Tem gente de Ceilândia, de Samambaia e até de Valparaíso.

O Bumba-Meu-Boi

Gilvan do Vale: O boi mexe comigo desde criança. Eu já nasci praticamente dentro dele, lá no Maranhão. A Mãe Catirina e o Pai Francisco são os personagens fundamentais da brincadeira. A história do boi surgiu desses dois personagens, esse casal de negros que trabalhavam numa fazenda e foram roubar o boi.

O Tambor de Crioula

GV: Dentro do tambor tem as toadas, que são de vários tipos. A primeira é a reunida, que reúne o grupo, e depois vem o guarnicê. Os dois são na fogueira. Depois, a gente canta o Lá vai. E depois o Chegou, que é quando chegamos no lugar onde vamos nos apresentar. Depois cantamos a toada para chamar o boi, depois o urro do boi e a toada final, que é a despedida. Tem as toadas de domínio popular, mas também tem as toadas novas. Eu também componho toadas, o tambor tem isso, no momento mesmo você criar a toada, no improviso. Já os tambores chamam-se meião, crivador e tambor grande ou rufador. É no tambor grande que as coureiras dançam e entram para substituir a outra que está dançando, com a umbigada. Também usamos a matraca.

Processo de inventariado como patrimônio imaterial

AF: Nós estamos trabalhando. Pegando documentos e aguardando a adesão do governo. Não é um processo fácil, né? Nós temos 50 anos. Não é fácil nem pra gente nem pro governo com tanta coisa. Nossa cultura é genuinamente maranhense e em Brasília é muito difícil fazer cultura popular. Ela é aceita, mas não é fácil. Por ter 50 anos de luta, você vê que o trabalho é serio. Cinquenta anos não é 50 dias, 50 anos tem história. Nossa festa hoje faz parte do calendário oficial do GDF e o que a gente quer é ver o povo dançando, cantando. Queremos deixar nosso pai gravado na memória da cultura popular.

A história do Boi do Seu Teodoro já foi de diversas pesquisas, vídeos e reportagens. Um dos documentos que conta parte dessa história é o documentário Teodoro Freire - o guardião do rito.

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