Tião Carvalho
Igor Costa

Tião Carvalho

Tião Carvalho traça um caminho diferente na arte, trazendo na sensibilidade e sabedoria dos seus ancestrais a importância de suas raízes. No natural, no simples, naquilo que ‘não se sabe tudo’, que ‘não se entende por completo’, neste lugar onde muitas vezes ‘não se consegue nem falar ou registrar’ mora sua sabedoria, sua memória, sua audição, seu olhar, seu sentir.

Nascido em Cururupu, interior do Maranhão, cresceu imerso nas festividades populares, como Tambor de Crioula, Capoeira, Bumba Meu Boi, Samba de Roda, Roda de Samba, Choro, entre outras. Sobre suas referências musicais, Tião conta, vêm desde a barriga da sua mãe, pois tudo já existia e o que ele fez foi apenas nascer:

“Quando o Tambor estava tocando, eu já estava ali, escutando. Minha mãe dançava ou escutava e eu sempre junto. Foi muito importante nascer numa região de quilombolas, naquela época, herança dos meus ancestrais. Agradeço a todos, sentindo quase que uma obrigação em guardar tudo isso, de não esquecer, abandonar, nem desistir.”

Desde muito pequeno, Tião acompanhava seu pai nas festividades da comunidade, tendo naturalmente trilhado o percurso da cultura e da tradição de sua terra. Porém, aos 8 anos de idade, a convite de sua tia materna Edite, a tia Didi, mudou-se para São Luís. Na ocasião, recebeu o consentimento e o favorecimento de sua mãe Floriana, a Dona Florzinha, e de seu pai Feliciano, o Seu Pepê, e rumou para a Ilha do Amor, como é chamada a capital maranhense, onde encontrou o universo dos Tupinambás, dos Tambores, das Casas das Minas. Um encontro que, sem dúvidas, fortaleceu suas raízes.

Um dos momentos marcantes na vida de Tião Carvalho, segundo ele mesmo relata, aconteceu na passagem da sua infância para a adolescência, quando conheceu o capoeirista Anselmo Barnabé Rodrigues. Mestre Sapo, como é conhecido, dava aulas de Capoeira em uma escola que ficava a um quarteirão da sua casa, na região central da ilha, em frente a Praça Odorico Mendes - onde rolava, também, o futebol. Sempre que Tião passava por lá, pela janela espiava os alunos treinando e se encantava ao som do berimbau.

“Escutei o berimbau tocar e então fui até lá pra ver o que era... Era a Capoeira! Ouvir o Berimbau, a Capoeira, o Mestre Sapo foi muito importante! Senti que não estava sozinho. A Capoeira me colocou em bem-estar com a cidade, com bairro, comunidade, amigos... Aconteceram outros momentos também, mas essa passagem foi muito importante pra mim: ter um Mestre, nesta fase, fez toda a diferença”, reflete Tião, que considera a Capoeira de extrema importância para sua formação enquanto cidadão. Ela lhe garantiu a sobrevivência na grande roda da vida, lhe proporcionando dignidade, firmeza, atenção e segurança para seguir.

Tião cresceu e se desenvolveu cercado por uma cultura ancestral, brasileira, maranhense. Cada vez buscando mais maneiras de vivenciar a tradição de seu povo, começou a se interessar pelos instrumentos musicais. Sua dedicação, estudo e contínuo aperfeiçoamento o presenteou com convites e indicações para compor grupos e bandas que se apresentavam nos festejos e eventos da cidade, legitimando sua vocação para a arte da música. Ao mesmo tempo que ampliava seu repertório musical, rumava para os núcleos das Brincadeiras como o Tambor de Crioula, Bumba Meu Boi, Cacuriá, entre outras. Sua formação musical acontece durante as vivências dessas tradições culturais e das experiências do cotidiano contemporâneo, sob a constante crença na força dessa musicalidade, da ancestralidade, enquanto alimento para homens e mulheres modernos.

Seguindo seu percurso, já com sua herança incorporada e potencializada, Tião Carvalho volta a Cururupu. Como festejo, faz um Tambor de Crioula na porta de casa. Nessa ocasião, estando com os mais velhos da comunidade, recebeu a confirmação do seu rumo certo: mostrar para o mundo as belezas e riquezas de sua cultura. “Tudo isso é seu! Continua! Não precisa se preocupar!” – ouviu Tião, benção tal que ainda hoje ecoa em seu pensamento.

Falar sobre raízes é também falar da relação que Tião Carvalho mantém com o Maranhão, bem como com sua família e amigos que moram lá. Mais de uma vez ao ano, volta a sua terra para ampliar e renovar suas relações, repertório cultural e musical, sempre pensando e olhando pra frente, nas possibilidades de criar novos vínculos e projetos para o futuro.

“Uma andorinha só, não faz verão! Tenho consciência da importância de toda a turma, do companheirismo dos que compartilham disso tudo comigo!” conclui Tião Carvalho.




Texto: site www.tiaocarvalho.com.br


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