Apinajé
Vivian F. Scaggiante

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Apinajé

Na segunda metade do século XX, a tribo Apinajé sofreu uma grande depopulação e desestruturação social, quando seu território foi invadido por centenas de famílias de migrantes e suas terras foram cortadas por estradas, como a Belém-Brasília e a Transamazônica.

Os Apinajé nunca deixaram de habitar a região compreendida pela confluência dos rios Araguaia e Tocantins. Até o início do século XX,  o limite meridional da área era dado pelas bacias dos rios Mosquito (no divisor de águas do Tocantins) e São Bento (no Araguaia). Atualmente, a Terra Indígena Apinajé está localizada nos municípios de Tocantinópolis, Itaguatins e São Bento, no extremo norte do Estado do Tocantins, região conhecida como Bico do Papagaio (TO). 

A Terra Indígena (TI) dos Apinajé é de 141.904 hectares de extensão. Do ponto de vista da conservação dos ecossistemas locais, a TI Apinajé está relativamente bem preservada, tendo se recuperado da degradação provocada pela presença de mais de 600 famílias da região em suas terras até a demarcação da área em 1985.  Segundo dados da Funasa, em 2010 existiam 1.847 índios Apinajés.  

Organização Social

Como as demais sociedades Jê que habitam o Brasil Central, os Apinajé têm em comum uma sofisticada organização social composta por vários sistemas de metades cerimoniais e grupos rituais, assim como aldeias relativamente populosas. São predominantemente caçadores-coletores, praticando - antigamente mais do que hoje - apenas uma horticultura centrada em tubérculos.

A região dos cerrados, com seus amplos horizontes - que lhes permite uma movimentação fácil (todos os Jê são andarilhos e corredores) e a possibilidade de explorarem, simultaneamente, as várias fisionomias vegetais que caracterizam o cerrado (matas de galeria, cerradões, campos etc.) sedimentou nos Jê o que se chama de “cultura de cerrado”.

As fotografias tiradas pelo etnólogo de origem alemã Curt Nimuendajú entre estes índios, nos anos 1930, revelam como era o cotidiano deles: os homens ainda nus, toras de corrida espalhadas por todos os cantos da aldeia (a marca da intensidade da vida ritual), o rigor dos enfeites e adereços usados pelos homens e mulheres nos rituais de iniciação.

A depopulação drástica que sofreram, aliada ao engajamento imposto pelo SPI e posteriormente pela Funai nas atividades produtivas de coleta e quebra de coco, vieram a interferir neste quadro, particularmente no abandono do calendário ritual como norteador das atividades econômicas. Atualmente, depois da área demarcada e de uma re-aproximação mais intensa com os demais grupos Timbira, acentuada pela participação na Associação Vyty–Cati, os Apinajé vem retomando com maior empenho alguns de seus rituais.    

Para se entender o que se constitui em um "território" para os Timbira em geral e para os Apinajé em particular é necessário o conhecimento de que uma aldeia timbira se constitui em um "grupo local" autônomo, isto é, que age politicamente e se apresenta frente as outras aldeias como unidade. Esta autonomia é gerada por um processo de cisão que leva algumas famílias a se desligarem da aldeia-mãe, por razões diversas (em geral, por acusações de feitiçaria ou boataria). Mas esta autonomia só se completa quando o novo grupo tem condições reais de realizar os rituais mais importantes do ciclo anual sem concurso das demais aldeias.

Essa unidade do grupo local se manifesta ainda na chefia (o pa'hi possui delegação dos grupos domésticos para decidir autonomamente sobre os interesses da aldeia - krï) e na utilização exclusiva de uma porção do território para caça e coleta (quando uma nova aldeia é formada, seu local de instalação é em geral acertado com os membros remanescentes da aldeia original, de forma a não sobrepor seus territórios de caça, fonte constante de atritos entre as aldeias). Assim, cada aldeia tem seu "chefe" (pa'hi) e possui autonomia de decisão. Não existe nenhum outro poder que, acima das aldeias, representaria todas aldeias Apinajé (como um conselho de chefes ou algo parecido).

As atividades cotidianas nas aldeias obedecem a um calendário ritual regulado pelas atividades do "pátio", centro das aldeias circulares e lugar da cena política propriamente dita. Ali, toda manhã e no final da tarde, os homens se reúnem com os "governadores" para decidirem ou avaliarem as atividades do dia (quem vai para a roça, quem vai caçar etc.) ou as atividades necessárias para a conclusão ou prosseguimento de um ritual em curso. Os “governadores” (sempre dois jovens) são escolhidos pelos mais velhos e pertencem necessariamente à metade sazonal que “domina” a aldeia: se no “Verão” (estação seca) pertencem à metade Wacmejê; no “Inverno” (estação das chuvas), devem pertencer à metade Catãmjê. No Cerrado há duas estações bem definidas: seis meses de chuva e seis meses de seca. 

A dinâmica e a teia responsável pela estrutura social apinajé é dada por dois sistemas de trocas vinculados: a troca de nomes e a troca de cônjuges, sistemas estes que fundam e determinam as relações de aliança entre os grupos domésticos e segmentos residenciais de toda e qualquer aldeia Timbira.

Aspectos Cosmológicos

Como para a maioria dos grupos indígenas do Brasil, para os Apinajé os elementos da "natureza", sobretudo os animais, nunca são apreendidos como únicos ou isolados, mas como participantes de uma cadeia de relações que envolve de uma só vez os humanos e não-humanos e estes entre si. Nesse sentido, caçar significa interagir com forças simbólicas da natureza, pois toda caça possui uma subjetividade particular (um "espírito" que define o "caráter" de uma espécie animal determinada) que coloca a relação predador/presa como uma relação entre sujeitos.

A mitologia também enfatiza a "humanidade" dos animais, dado que "antes todos os bichos falavam". Para eles, os animais são tidos como ex-humanos. A concepção indígena nesse ponto se diferencia radicalmente da cosmologia da chamada sociedade ocidental, para quem a condição "comum" entre os humanos e os bichos é a "animalidade" (somos animais racionais).

Atividades Produtivas

Nas aldeias Apinajé, as roças de subsistência, que pertencem às mulheres, são abertas nas matas de galeria ou de encosta mais ou menos distantes, que se localizam sempre perto de pequenos ribeirões e em lugares altos, com boa visão, preferencialmente na "chapada" (põpej) - com predominância de uma fisionomia vegetal de cerrado (senso estrito).

Os homens são responsáveis pela "broca" (desbaste da vegetação arbustiva), a derrubada e o plantio do arroz; as mulheres participam da semeadura do milho, mandioca e demais gêneros (fava, inhame, feijões, batata-doce, abóbora, melancia, amendoim, mamão e banana). Naquelas matas, os solos são mais argilosos e ricos em nutrientes. A média colocada por grupo doméstico é de 1,5 hectares (ou de 0,5 ha por família elementar).

As roças apinajé não diferem daquelas observadas em outros grupos indígenas sul-americanos - e que se diferenciam bastante daquelas dos regionais vizinhos. Enquanto as roças destes últimos privilegiam o arroz e a mandioca, plantados separadamente, as roças indígenas aparentam um certo caos, apresentando um consorciamento de espécies.

O arroz, o milho e a mandioca são plantados antes, com pequenos intervalos de tempo (novembro/dezembro) e intercalados ao longo de toda extensão do roçado; depois, são plantados os inhames e a batata-doce (janeiro) em setores específicos; após a colheita do milho verde (março), são plantados as favas e o feijão "trepa-pau" junto aos pés do milho deixados para secar; nas leiras remanescentes da coivara são plantadas abóboras e finalmente são distribuídas pela área mamão e banana. A vida útil de uma roça é determinada pelo ciclo da mandioca (9 a 10 meses) e da banana.

Para saber mais: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/apinaye


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