Avá-Canoeiro
Giovanna Beltrão

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Avá-Canoeiro

Os membros da etnia Avá-Canoeiro sofreram muitos massacres durante a história e, por isso, grande parte da cultura se perdeu. Como consequência desses acontecimentos, o grupo foi forçado a modificar a forma como viviam para fugir dos conflitos com o homem branco. Dados de 2011 afirmam a existência de apenas seis membros na etnia, que corre risco de extinção.

Alguns estudos feitos pelo linguista Aryon Rodrigues, um dos mais renomados pesquisadores de línguas indígenas do Brasil, revelam características presentes no dialeto usado pelos Avá-Canoeiro que são encontradas também no dialeto usado pelas tribos Guarani do nordeste, o que sugere que eles sejam descendentes de etnias dessa região.

A Terra Indígena Avá-Canoeiro tem 38 mil hectares de extensão e se localiza entre as cidades de Minaçu e Colinas do Sul, Goiás. O terreno é acidentado, com várias serras, sendo a Serra da Mesa a mais conhecida. O principal rio da região é o Rio Maranhão, que divide os dois municípios. No entanto, outros afluentes do mesmo rio passam pelas redondezas, como o Ribeirão Canabrava e o Rio Bonito.

As principais atividades econômicas dessas cidades são a criação de gado bovino para o abate e as minas de amianto, principalmente em Minaçu. Boa parte da renda também vem das indústrias, sobretudo das empresas de energia elétrica, devido às usinas de Serra da Mesa e Canabrava. Os dois municípios desfrutam do turismo pela beleza da região que dispõe de cachoeiras, rios, cavernas e boa estrutura de pousadas e hotéis. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Colinas do Sul é de cerca de quatro mil habitantes, enquanto Minaçu tem cerca de 31 mil moradores.

História

Os Avá-Canoeiro, também conhecidos como “Cara Preta”, têm sua história conhecida a partir da chegada dos bandeirantes, responsáveis pelo primeiro contato do homem branco com a etnia. O nome Avá-Canoeiro, no entanto, surgiu por volta de 1970. A palavra “Avá” significa homem, gente ou pessoa e o termo “Canoeiro” remete à habilidade de seus membros com as canoas. Na época das bandeiras, no século XVIII, eles eram conhecidos apenas como “Canoeiro”. O homem branco, conhecido por eles como “maíra”, foi hostil desde o primeiro contato e expulsou muitos índios da região que pretendia explorar. O grupo, desde então, tem sofrido vários massacres em sua história.

No início do século XIX, as famílias de Avá-Canoeiro viviam ao longo do rio Tocantins e seus afluentes. A partir de 1820, elas passaram a habitar, também, as montanhas entre o rio Maranhão e os povoados de Amaro Leite e Santa Tereza, além de algumas aldeias próximas ao rio Canabrava. Essa região habitada pelos Avá-Canoeiro era uma área propícia à expansão da pecuária, o que gerou vários conflitos entre os índios e a população. Os próprios governos das províncias mandavam expedições oficiais contra o grupo que, além de viver numa área de expansão, habitava uma região de grande importância que ligava a capital da província aos portos do Rio de Janeiro. Por causa dos conflitos frequentes entre os Avá-Canoeiro e as autoridades locais, a etnia se separou. Entre 1844 e 1865, algumas famílias Avá-Canoeiro migraram para a Ilha do Bananal, onde se misturaram com a etnia Javaé, o que fez com que acabassem perdendo grande parte das suas tradições. Segundo informações do Instituto Sociambiental (ISA), existem ainda mais dois grupos Avá-Canoeiro que não mantêm contato com a sociedade. O Instituto acredita que essas tribos se deslocam pela região serrana do rio Tocantins. Outra grande parte da etnia, porém, permaneceu na região goiana.

A briga por território entre os grupos que permaneceram em Goiás e os “maíra” era constante: a província na época colonial, a população local e, mais tarde, até fazendeiros entraram em conflito com os índios. Por volta de 1940, os Avá-Canoeiro viviam próximos aos municípios de Santa Tereza, Campinaçu e Cavalcante. Nessa época, as lutas entre indígenas e fazendeiros eram constantes, muitos contratavam jagunços para retirar os índios da área. A primeira iniciativa de contato pacífico ocorreu em 1946 através do Conselho Nacional de Proteção ao Índio (CNPI), que delimitaria um espaço para a aldeia entre as cidades de Dueré, Natividade e Peixes. Para isso, foram construídas estradas e houve uma tentativa de manter maior contato com o grupo. No entanto, nada concreto foi firmado entre os índios e a população do município.

Em 1966, moradores da região surpreenderam o grupo e mataram cerca de 15 índios Avá-Canoeiro, quase toda a etnia. Depois do massacre os corpos foram colocados em uma das “casas” da aldeia e incendiados. Em um documentário dirigido por Bernardo Palmeiro, uma das sobreviventes do massacre, Mátxa, conta que em uma noite comum a aldeia foi invadida e foram mortos muitos homens, mulheres e crianças. Um descendente dos sobreviventes, Trumak, também conta o que lhe foi passado sobre esse episódio: o medo, a matança e a queima dos corpos, em seguida. Veja

Os sobreviventes seguiram para a região próxima a Serra da Mesa, onde viviam escondidos em cavernas. Nesse local, por volta de 1970, foi construída a Hidrelétrica de Serra da Mesa, que inundou boa parte do território dos Avá-Canoeiro. Em decorrência disso, a Fundação Nacional dos Índios (Funai) garantiu uma indenização ao grupo, que é administrada pela própria Fundação e pelo Ministério Público Federal. Ainda assim, devido à presença da usina hidrelétrica, estradas e fios de alta tensão passam pela Terra Indígena Avá-Canoeiro.

Mesmo depois desses acontecimentos, seis Avá-Canoeiro ainda conseguiram resistir. Em 1983, cerca de dez anos depois da construção da Usina de Serra da Mesa, os próprios índios procuraram, ainda que de forma arredia, um contato com o homem branco. Eles, que viviam sempre se escondendo, apareceram para alguns moradores da região, mesmo que de longe. Com a informação da presença deles, a Funai tentou manter o contato. Mesmo tendo o medo como fator predominante na relação com o homem branco, os Avá se abriram e receberam assistência. Em 1996, a Fundação concedeu ao grupo a posse da Terra Indígena Avá-Canoeiro, na região de Minaçu e Colinas do Sul, que já era habitada por eles. Uma pesquisa da Funai, feita em 2006, apontava a existência de dezesseis representantes da etnia Avá-Canoeiro. Em 2011, esse número caiu para seis. São eles: Mátxa, Nakwátxa, Tuie, Iawi, Trumak e Putitxaua.

Costumes e Organização Social

Antes das constantes lutas que os forçavam a se mudar, os Avá-Canoeiro tinham uma cultura de subsistência nas aldeias com agricultura, coleta e caça, além de se mudarem periodicamente como nômades. Porém, devido ao grande número de ataques que o grupo sofreu durante a sua história, eles se viram forçados a adotar uma cultura nômade, além de viverem se escondendo em cavernas por um longo período, com medo de outros possíveis massacres. O ambiente hostil fez com que se escondessem durante o dia e saíssem para caçar à noite. Outra consequência da vida nômade e escondida que passaram a levar foi a adoção de métodos abortivos, pois mulheres grávidas e crianças no grupo representariam atrasos e os deixariam mais vulneráveis.

Cultura Material

A cultura material dos Avá-Canoeiro compreendia a cerâmica, armas, instrumentos musicais, cachimbos, pintura corporal e uso de penas.  No entanto, durante o longo período em que viveram como nômades, com medo dos grandes conflitos com o homem branco, muitos desses itens não foram mais produzidos. Quando se instalaram novamente em uma aldeia, voltaram a confeccionar os instrumentos, os cachimbos e até a cerâmica, típicos de sua cultura. Nesta época, o grupo havia perdido o último homem, portanto, Mátxa assumiu o papel de chefe da aldeia, fazendo o trabalho masculino para preservar a etnia. A irmã de Mátxa, Naquátxa, assumiu como líder espiritual da etnia, realizando os rituais de cura e pajelança. O garoto Piauí, ainda muito jovem, assumiu o dever de cozinhar para o grupo. Essa inversão de papéis foi necessária para preservar a cultura dos Avá-Canoeiro.

O grupo também adquiriu alguns novos materiais devido ao contato com a sociedade, como o metal, o chapéu de palha e alguns tipos de alimentos. Por vezes, a dificuldade de se conseguir alguns desses itens os levava a fazer pequenos furtos ou se utilizar de restos. Com técnicas de trabalhar o metal a frio e bastante criatividade, os Avá-Canoeiro transformavam molas de carros em facões rústicos, tambores de gasolina em pontas de flecha e pregos de cerca em anzóis. Também devido ao abate de gado, o grupo passou a produzir uma série de produtos usando couro, chifres, cascos, entre outros.

A história dos Avá-Canoeiro mostra um povo que se adaptou às condições impostas a ele, o que o fez abrir mão de sua cultura e seus costumes. Mesmo com toda essa capacidade de adaptação, os Avá-Canoeiro sofrem com o risco de extinção, uma vez que os seis membros sobreviventes da etnia fazem parte da mesma família. Os massacres praticamente dizimaram o grupo. A convivência hostil com o homem-branco os forçou a abandonar seu modo de vida e a sua cultura para sobreviver. Ainda assim, os Avá tentam resgatar seus antigos costumes para que não se percam antes do tempo.

» Veja a entrevista de Trumak sobre o massacre da tribo Avá-Canoeiro

 

Para saber mais: 

http://pib.socioambiental.org/pt/povo/ava-canoeiro/194

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