A Caçada da Rainha é uma das manifestações que compõem a festa de Nossa Senhora do Rosário de Monte do Carmo e, apesar de ser parte do calendário litúrgico católico, é atravessada por elementos de outras matrizes religiosas. Unindo as celebrações na igreja aos cantos e danças de congos e taieiras, e ao som dos tambores nas ruas, a festa também se vincula à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos que existiu no Arraial do Carmo, entidade organizadora da festa e promotora da devoção local à santa.
A festa tradicional religiosa no município acontece nos dias 17 e 18 de julho e consiste em uma movimentação de rua com presença de tambores, na qual as pessoas dançam e cantam. Há vários personagens como rei, rainha, caçadores, caretas, batedores de tambor e os dançadores. Todos fazem uma roda e cada par entra no meio para dançar. Cada vez que um sai, o outro par ou pessoa entra. Os caretas, fantasiados com máscaras de monstros, animam o público, principalmente as crianças. Outro destaque é a dança com uma garrafa de cachaça na cabeça. Durante a dança, servem bebidas como licores de jenipapo, tamarindo, acerola, abacaxi, inhará, caju e murici.
Essas danças são em homenagem à Rainha e seguem a história relatada por Marilda Amaral, integrante do grupo:
“A caçada à Rainha é uma espécie de piquenique onde o Rei e a Rainha saem juntos para caçar animais - era um costume nobre sair para caçar. Com eles vai um grupo de pessoas convidadas, um homem e uma mulher, que são os caçadores. Eles levavam os negros escravizados para cozinhar. Os negros acompanhavam cantando e dançando tambor”.
A FESTA EM MONTE DO CARMO
TRADIÇÃO
A Caçada da Rainha acontece há pelo menos 200 anos no município de Monte Carmo, pequena cidade localizada a 90 km da capital do Tocantins. A festa é dedicada à Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e acontece nos dias 17 e 18 de julho. O auge da festa é no dia 17 de julho, quando acontece a Caçada da Rainha. Festejo de origem mista entre as culturas européia, negra e indígena, conta hoje com cerca de 7.000 visitantes.
O papel da igreja católica na Festa é de celebração da missa e de coroação do Rei e da Rainha, que são responsáveis pela sua realização. A Rainha é coroada e abençoada pela igreja e organiza a festa com um ano de antecedência. A tradição conserva o oferecimento de biscoitos, bolo com chá e culinária típica aos foliões.
- Primeiro dia: Caçada da Rainha, à tarde / Coroação da Rainha, à noite.
- Segundo dia: missa em celebração à Nossa Senhora do Rosário e cortejo nas ruas das cidades. Finalização na casa da Rainha, onde é servido lanches e mais bebida.
Em detalhes:
A partir do dia 7 de julho, os moradores do lugar ficam envolvidos com a tradição. Até o dia 15, acontecem as novenas. No dia 16, é a vez do Reinado, quando uma comitiva composta pelo novo Rei, tocadores e pessoas da comunidade vão à procura do Rei velho para levá-lo à igreja, onde é celebrada a missa e acontece a passagem da coroa pelo padre da paróquia.
Na tarde do dia 17, ocorre a encenação da Caçada da Rainha. A estrela da festa, a Rainha, sai montada a cavalo ao lado do Rei. Trajados conforme o costume medieval, seguem com sua comitiva, formada pelos caçadores, seus convidados. Esta Tradição remonta ao período medieval, quando os nobres tinham o hábito da caça. Os tambores que os acompanham são os caxambus, feitos de tronco de pequi, um costume que ainda se mantém intacto desde as origens da festa.
Os tambores vão à frente do Rei e da Rainha, acompanhados de cantorias, durante toda a tarde, e o povo os acompanha. Quando chega a noite, acontece a coroação da Rainha, na igreja, que chega acompanhada de um cortejo. Neste ritual em Monte do Carmo, ainda se usa candeias artesanais de cera de abelha e pavios, o que enriquece o cenário. Um sanfoneiro segue o cortejo trazendo alegria com sua música. A Rainha é coroada e, em seguida, todos participam da missa e depois vão tomar café com bolo por oferecimento da Rainha. À noite segue com um baile adaptado à região para que o povo participe e se divirta, sendo o forró um ritmo bastante apreciado.
No dia seguinte (18 de julho), acontece a missa de N.S. do Rosário, com procissão que sai pelas ruas da cidade com a imagem da Santa à frente, num andor, seguido de vários grupos folclóricos, como os Congos.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Wendy Almeida de et al. Os ritmos tradicionais nos tambores do tocantins: constituições identitárias e processos culturais. 2013.
https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/3193
SILVA, Marinalva do Rego Barros. Festas e sociabilidades nos sertões: a Rainha Nossa Senhora do Rosário. 2019.
https://repositorio.unesp.br/handle/11449/191377
MESSIAS, Noeci Carvalho et al. Religiosidade e devoção: as festas do Divino e do Rosário em Monte do Carmo e em Natividade-TO. 2010.
https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tde/1219
Saiba mais:
http://www.ufg.br/this2/uploads/files/112/36_NoeciMessias_NegrosEBrancosEmMonteDoCarmo.pdf