Pela primeira vez, em 13 anos de realização, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros teve a presença de um povo cigano. No sábado de 21 de julho de 2013, uma família de cinco membros, do segmento Kalon, chegou na Vila de São Jorge. Atualmente residentes em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, a família Kalon se dirigiu ao Encontro após participar de um evento em Brasília. O intuito da visita é dar visibilidade à cultura cigana, que, segundo eles, é uma das que mais sofre discriminação no Brasil e no mundo.
Acolhidos pela produção do Encontro, a família Kalon se apresentou no palco principal durante a noite de sábado. Em um show que iniciou com o canto do pequeno Nicolas, de 5 anos, eles encantaram o público com sua forte musicalidade e expressão, marcada pela dança das mulheres e pelas cores e brilhos das vestimentas e adereços usados pelos ciganos. “Minha família vive de viagens pelo Brasil, cantando, dançando e vendendo o que nós mesmos fazemos. Somos uma família de músicos. Os Kalon são conhecidos pelo seu talento musical. Aqui ninguém nunca foi pra escola aprender música”, destacou Maura Piemont, matriarca da família.
Quando não está em viagem, a família reside em um acampamento cigano em Peruíbe, cidade que abriga vários outros povos e comunidades tradicionais, como indígenas e caiçaras. A partir de suas vivências e cansada de ver, como ela mesma afirma, a invisibilidade do povo cigano no Brasil, Maura há alguns anos decidiu se articular em discussões políticas e encontros sobre igualdade racial. Atualmente, ela é Membro da Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais. “Cansei de ver os ciganos sofrerem. Busco a cidadania, que é o que eu quero para o meu povo, só isso”.
Maura comenta: "A nossa exclusão social é muito grande. O governo não sabe quem somos, quantos somos e o que queremos. Ainda somos um povo à parte e temos a necessidade de uma identidade reconhecida".
Segundo Maura, o preconceito aparece principalmente nas invasões dos acampamentos pela polícia e na escola, quando a filha não tem o direito de usar suas roupas e, muitas vezes, não sorri para esconder os dentes de ouro. Na tradição cigana, a criança coloca o dente de ouro ao completar 12 anos de idade. "Minha filha foi discriminada na escola pelo professor, quando fez ela ir na frente da sala para mostrar que era diferente, que tinha ouro na boca. Depois disso, ela quis estudar Direito para conhecer as leis. Até já passou no vestibular".
OS KALON
Originários da Índia, os ciganos da etnia Kalon fixaram residência na Europa, mais especificamente em Portugal e Espanha, onde sofreram rigorosas perseguições. Deportados de Portugal, vieram os primeiros Kalon para o Brasil, sendo um dos primeiros povos a chegar ao País, em 1574. Maura Piemont conta que o primeiro Kalon a chegar no Brasil foi João Torres e sua família. Da Bahia, as demais famílias foram para o Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e de lá se espalharam por outras regiões. Estimativas contabilizam mais de 800 mil ciganos no País, contando os Kalon e outros segmentos. Mas para os ciganos, levando em conta mais de 400 anos de história, esse número é muito maior.
Existem outros segmentos do povo cigano, como os Rom, que possuem dialeto e cultura diferentes. Entre os Kalon, as características tradicionais são até hoje preservadas. Culturalmente, eles vivem em barracas, costuram as próprias vestimentas, são devotos de Nossa Senhora Aparecida e possuem algumas crenças relacionadas ao catolicismo, entrelaçadas com elementos místicos. “Detemos muitos conhecimentos de plantas e acreditamos em vida após a morte. Nós passamos por aqui, nessa vida, para saldar uma dívida. Algumas mulheres ciganas também têm o dom de leitura de mãos. É um dom dado por Deus apenas para as mulheres, dentro da cultura cigana.”
PRECONCEITOS E MITOS
Um dos principais problemas que os ciganos apontam sobre seu povo é a invisibilidade e a dificuldade de acesso à educação, à justiça e à saúde, decorrentes da discriminação da sociedade e, segundo eles, de governos municipais. Mesmo com alguns programas de inserção social garantidos pelo governo federal, muitos direitos já consolidados esbarram na resistência de lideranças dentro dos municípios. As barracas, que são por tradição a moradia dos ciganos, por exemplo, só podem ser montadas em beira de estradas, que, em geral, ficam distantes de escolas e de hospitais.
Outra questão pontual são os mitos que permeiam a cultura cigana para o senso comum. Um deles é o de que os ciganos roubam crianças. Esse pensamento generalizado e errôneo tem raízes muito diferentes. Segundo os ciganos, quando as filhas virgens e solteiras dos coronéis engravidavam, eram obrigadas a ficar reclusas no convento. Quando o bebê nascia, era levado a um acampamento cigano, junto com alguma quantia em dinheiro, para esconder a “vergonha” da moça virgem. Os ciganos, que têm como valor o respeito às crianças e aos idosos, acolhiam os bebês desprezados pelos coronéis e os criavam como se fossem membros da família. Para esse povo, a criança é o futuro e o idoso é a experiência.