Em 1994, o ator catarinense Valdemir de Souza, que interpreta o palhaço Maneco Maracá, transferiu-se para Goiânia e, juntamente com sua companheira, Seluta Rodrigues, fundou o Grupo de Teatro Laheto, que tinha o objetivo inicial de fazer pesquisa, estudos, montagens e apresentações de espetáculos teatrais e circenses na cidade e no interior de Goiás.
A partir de 1996, o grupo passou a focar suas energias em estudos, pesquisas e atividades conduzidas pelas políticas de atendimento à crianças e adolescentes advindos de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica e começou a investir na formação e capacitação de artistas circenses e educadores para formar profissionais habilitados. Isso foi feito com a intenção de consolidar e expandir a proposta educacional do grupo, que é proporcionar uma educação integrada por meio da arte circense. Assim, nasceu o projeto "Arte, Circo e Cidadania", que permaneceu durante quatro anos no Bairro Dom Fernando, na capital goiana.
No início do ano 2000, o Grupo transferiu-se para o Parque da Criança e inaugurou a Escola de Circo, que veio a se tornar Escola de Circo Laheto. Desde então, o foco dos arte-educadores passou a ser o atendimento a crianças e jovens em situação de risco social da região.
No decorrer dos anos, a Escola de Circo Laheto passou a ser vista como referência nacional. Participante da rede mundial de circo e reconhecida como instituição educacional, a Escola é capaz de fornecer uma aprendizagem integrada para o desenvolvimento cultural, cognitivo, emocional, psicossocial e profissional de suas crianças e jovens. Desta forma, é considerada um instrumento socioeducativo, com capacidade de contribuir para a construção de uma sociedade mais equânime e solidária.
O Circo Laheto se tornou, então, uma Organização Não-Governamental (ONG) e conta com o apoio de organizações e iniciativas como Petrobrás Cultural, Ministério da Cultura (MINC), Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS), Secretaria Municipal de Educação (SME), Estado de Goiás, Fundação Pró-Cerrado, Universidade Federal de Goiás (UFG), Conselhos Estaduais e Municipais de Direitos da Criança e do Adolescente; além de Associações de Bairros, lideranças comunitárias, entre outras parcerias e convênios.
ENCONTRO DE CULTURAS
No Encontro de Culturas tem Circo? Tem sim senhor! O Circo Lahetô voltou à vila de São Jorge em 2010, para mais uma apresentação do espetáculo "História de Goiás no Picadeiro" no X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O circo, que também é uma ONG, trabalha principalmente com crianças e jovens que se encontram em situação de provável risco social. Na apresentação que aconteceu no dia 29 de julho, embaixo da tenda do circo, o grupo mostrou através de técnicas circenses uma verdadeira aula de história de Goiás.
O espetáculo começa com a entrada de dois palhaços, Zé Butina e Zé Linguiça, representando respectivamente os palhaços tradicional e contemporâneo. Enquanto a história se desenvolve, um palhaço tenta convencer o outro de que ser moderno é melhor do que ser tradicional, e vice-versa.
Enquanto os palhaços se atrapalham com essa confusão, o público se diverte com os cinco atos da peça, que vai desde o Big Bang até a industrialização de Goiás, passando pelos povos primitivos, ciclo do ouro e fazenda goiana. Toda história é contada do jeito que a criança mais gosta: cheia de travessuras com as esquetes dos palhaços e as já conhecidas especialidades do circo, contextualizadas com a história do estado.
A trilha sonora do espetáculo foi feita especialmente por Beirão, da banda Beirão e os Filhos de Dona Nereide. "Não foi nada fácil adaptar o som da viola às necessidades do circo, mas, depois de muito trabalho, a música veio preencher os espaços que as nossas técnicas circenses não conseguem completar", explicou o diretor do circo, Maneco Maracá.
O LÚDICO
O ambiente lúdico proporcionado pelo circo desperta muita curiosidade nas crianças. "Este ano vim para o Encontro de Culturas especialmente para trazer minha filha ao circo, ela tem apenas 5 anos de idade e no ano passado, quando assistiu a esse espetáculo, ficou encantada. Quando saímos do picadeiro ela não parava de me fazer perguntas, percebi que o circo enriqueceu o imaginário dela", contou Huapi Lima, mãe de Shartala.
Seja com perna-de-pau, diabolô, monociclo, acrobacia, equilibrismo ou pelo próprio figurino das personagens, a apresentação do circo deixou tanto os pequenos quanto os grandes hipnotizados; os olhares que vinham das três arquibancadas lotadas seguiam todos os movimentos do início ao fim.
No intervalo das cenas, Zé Linguiça e Zé Butina dividiram o público em dois grupos. "Minha metade é daquele menino 'zóiudo' pra cá, a sua é do 'zóiudo' pra lá", explicou Zé Butina. Cada um dos palhaços comandou uma parte da plateia e juntos envolveram a todos em uma brincadeira com ritmos variados de palmas, tornando o público parte do espetáculo.
RESPONSABILIDADE
Mateus Souza é um dos 24 integrantes do circo que vieram a São Jorge para a apresentação de História de Goiás no Picadeiro. Com apenas 12 anos, Mateus comanda toda a percussão do espetáculo. Para frequentar os ensaios do grupo, o menino, que mora em Aparecida de Goiânia, na região metropolitana de Goiânia, sai da escola onde estuda e vai direto para a sede do circo. No trajeto, Mateus utiliza três ônibus para chegar e mais três para voltar para casa.
Uma das exigências feitas pelo diretor Maneco é que o artista circense estude bastante. Para fazer parte do grupo não se pode deixar os estudos em segundo plano. "O circo complementa a educação da criança. Para o espetáculo que estamos apresentando aqui em São Jorge contratamos, na hora de fazer a montagem das cenas, um professor de história. Ele deu aulas exclusivas em na nossa sede, para que os artistas aprendessem o que estão repassando para as outras crianças", explicou.
PALHAÇO NÃO MORRE, VIAJA ACENDENDO SONHOS
Esta foi a primeira vez que o Circo Lahetô se apresentou no Encontro de Culturas sem Maurício da Silva. O jovem que interpretava o palhaço Palito foi assassinado em fevereiro desse ano. "Foi uma perda muito grande pra gente, infelizmente nosso amigo Maurício nos deixou dias antes de gravarmos o tão sonhado DVD. Ele era muito especial, fazia o palhaço Palito como ninguém. Além disso era muito criativo, tanto em cena quanto nos bastidores", contou Mayke Nogueira, 17, que assumiu o lugar de Palito. "Resolvemos juntos quem iria entrar no lugar de Maurício, mas sabemos que ele é insubstituível", completou.
Quem assiste ao Circo Lahetô hoje, depois de ganharem o prêmio de Melhor Espetáculo do Festival Goiânia em Cena e de cerca de cinquenta apresentações pelo Brasil afora, não imagina o quanto foi difícil chegar onde estão. "Participo do projeto há mais de sete anos, e hoje a história do circo se confunde com a história da minha vida. Fico feliz por isso", contou o palhaço Mayke Nogueira.
Durante a trajetória, é claro que houve pedras pelo caminho. "Antigamente era muito mais difícil fazer as coisas; me lembro de alguns ensaios, quando utilizávamos materiais reciclados e não tínhamos quase nada para treinar", relembrou Lucas Sousa, um dos integrantes mais antigos do grupo. "Agora as coisas tomaram outro rumo. Recentemente conseguimos comprar um ônibus próprio, que é o que utilizamos para viajar com nossas coisas. A turnê do História de Goiás no Picadeiro, que era pra ser apresentada em vinte e cinco lugares, já está quase chegando na apresentação de número cinquenta", finalizou.
O projeto que resultou no Circo Lahetô é de 1980. Idealizado pelo casal Maneco Manacá e Seluta Rodrigues, o circo transformou e transforma a vida de muitas pessoas. A maior parte dos integrantes do grupo são originários de comunidades carentes ao redor de Goiânia e região metropolitana. Hoje, o circo conta com uma casa que serve de amparo para muitos membros do projeto e emprega diretamente jovens instrutores que oferecem a arte circense gratuitamente aos interessados.
*Texto do repórter do Encontro de Culturas em 2010, Caio Sena