A Comunidade Quilombola de Santa Rosa dos Pretos está localizada às margens da BR-135, no município de Itapecuru-Mirim, no Maranhão. O território possui atualmente mais de 600 famílias, que enfrentam problemas referentes à escassez de terras desocupadas para a realização de suas atividades econômicas, sociais, culturais e ambientais. A atividade econômica predominante no povoado é a agricultura e a pesca.
Entre as manifestações tradicionais da comunidade se destacam três festejos do Divino Espírito Santo, a dança do coco, o tambor de mina, o tambor de crioula, o terecô de caixa, o boi de orquestra, o boi de zabumba, o carnaval, o Festejo de Nossa Senhora da Conceição, Dom Lázaro, São Benedito, Santo Antônio.
A celebração mais importante em Santa Rosa é o festejo do Divino Espírito Santo, que acontece entre 5 e 20 de novembro, na Igreja do Divino Espírito Santo, localizada na BR-135. Ao contrário do que ocorre em outros estados, o festejo é estreitamente identificado com as mulheres, mais especificamente com mulheres negras ligadas às religiões afro-brasileiras: as Caixeiras do Divino.
Em Santa Rosa, além das caixeiras, são peças importantes da festa: o Imperador, a Imperatriz, as Aias e Aios, os Mordomos, os Alferes, os Salveiros e os Juízes. Tanto o Imperador como a Imperatriz são crianças que, ao assumirem tal papel, pagam alguma graça recebida do Divino Espírito Santo. Durante a celebração, há também a brincadeira conhecida como terecô de caixa. O terecô é dançado ao som de caixas e as cantigas geralmente se referem a elementos da natureza e de trabalho. As coreografias simulam os movimentos cantados.
Além das festas de tambor, coco e festejos em homenagem a santos, existiam, em 2008, dois grupos de bumba-meu-boi em Santa Rosa: o Boi de Orquestra de Dona Severina Silva Pires e o Boi de Zabumba de Lôro e Osmundo. O bumba-meu-boi é muito popular no Maranhão e, assim como o Divino, mobiliza grande número de pessoas, entre costureiras, bordadores, músicos e bailarinos, que, durante quase o ano inteiro, empenham-se na preparação das fantasias e nos ensaios das apresentações.
Os terreiros de umbanda e tambor de mina são também muito importantes no território. O tambor de mina está presente há muitas gerações em Santa Rosa e nas demais comunidades negras do entorno, assim como na cidade de Itapecuru-Mirim.
ENCONTRO DE CULTURAS
O Tambor de Crioula é uma manifestação cultural que teve origem na África e chegou ao Brasil trazida pelos escravos. “A gente dança pra se divertir, descansar. Quando a gente fica muito cansada do trabalho durante o dia, dança um Tambor de Crioula à noite que dá outra energia pra gente”, conta Maria Dalva Belfor, uma das cantoras do grupo Tambor de Crioula da Comunidade Quilombola Santa Rosa dos Pretos, do Maranhão.
O grupo participou do XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2011.
Para muitos do grupo, a dança é uma forma de reafirmar sua identidade e manter a tradições. “É muito emocionante, a sensação de dançar o Tambor de Crioula é única”, conta Anacleta Pires da Silva, que participa da festa desde criança. Hoje, ela puxa a roda e canta as músicas com letras improvisadas ao som dos tambores.
“Vim fazer tambor gemer,
Vim fazer tambor gemer,
Hoje aqui nessa Chapada,
Vim fazer tambor gemer”
A preparação para a festa inclui o aquecimento dos tambores no fogo, para que o couro quente dê um som diferenciado. “Nós sempre fizemos assim. Até descobrimos que essa tradição surgiu porque os senhores de engenho aqueciam os tambores para fazer as mãos dos escravos doerem na hora de tocar. Acontece que, realmente, o som fica mais forte com o couro quente e, mesmo sabendo disso, é importante pra nós esquentar o tambor no fogo, já faz parte da nossa tradição”, explica Anacleta.
A caracterização das mulheres é especial, com roupas típicas das africanas e muito similares às baianas, com saias coloridas e rodadas. As blusas são brancas com babados no decote e, para complementar, uma faixa na cabeça, do mesmo tecido da saia. Na Vila de São Jorge, durante o Encontro, quando as mulheres rodavam as saias rapidamente, se via um grande borrão colorido se formando em volta delas.
Antes de se apresentar, o grupo todo se junta em uma roda para fazer uma oração, pedindo bênçãos e proteção para a dança. Quando formaram a roda no chão, mais próximo do público, os três tambores já pulsavam no ritmo característico da dança, dando apoio para os seis cantores fazerem suas rimas e improvisos.
A dança começava com a primeira da fila, que ia para o centro e rodava sua saia colorida, animada com o ritmo do batuque. Para passar a vez para outra pessoa, ela fazia um passo especial, chamado de punga, ou pungada, que consiste em uma espécie de umbigada. Depois desse passo, a primeira dançarina tomava o lugar da segunda na roda, que, por sua vez, dava o seu show no centro.
Rômulo Frazão, de 26 anos, veio do Rio de Janeiro para assistir ao Encontro e se encantou com o Tambor de Crioula: “Eles transmitem uma energia muito boa, com muita verdade nas letras e nos movimentos”, comentou.