Dança de São Gonçalo
Cultura Tradicional

Dança de São Gonçalo

A Dança de São Gonçalo é uma das inúmeras manifestações tradicionais brasileiras que compõe nossas raízes, ao lado das folias de reis, congadas, cavalhadas e moçambiques. Homens, mulheres, jovens e velhos do Vale, na cidade de São Francisco (MG) e Cana Brava (TO), desempenham um papel importantíssimo na manifestação.

A Dança de São Gonçalo é uma das inúmeras manifestações tradicionais brasileiras que compõe nossas raízes, ao lado das folias de reis, congadas, cavalhadas e moçambiques. Homens, mulheres, jovens e velhos do Vale, na cidade de São Francisco (MG), desempenham um papel importantíssimo na manifestação.

No município, ainda dançam o São Gonçalo em razão do cumprimento de promessas feitas pelos devotos, quando se obtém do santo um favor ou uma graça. Por isso, não há uma data pré-estabelecida. Quem define a data é o promesseiro, que precisa escolher o dia de acordo com suas condições em oferecer comes e bebes aos visitantes e às dançadeiras.



A chamada dança de São Gonçalo é de origem portuguesa e antigamente era realizada no interior das igrejas a ele dedicada. O santo é festejado no dia 10 de janeiro, data de sua morte, em 1259.

É um dos ritos mais difundidos do catolicismo rural brasileiro, existindo nos estados de São Paulo, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Paraná e Sergipe.


A DANÇA EM SÃO FRANCISCO (MG)

Em Minas Gerais, a Dança de São Gonçalo é considerada dança de votos de mulheres solteiras mais maduras, com mais de 40 anos, que desejam se casar. Sendo assim, é tipicamente feminina. O grupo se apresentou no VIII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2008.

A dança é desenvolvida por dez ou doze pares de moças, todas vestidas de branco, cada uma delas levando um grande arco de arame recoberto de papel de seda branco franjado. O movimento das rodas é ordenado pelo “marcante”, única figura masculina presente. Acompanhada pela música executada em viola, sanfona e caixa, a coreografia consta de evoluções com os arcos. Durante a dança, revivem a experiência das moças solteiras que o santo de Amarante protegia do pecado, incentivando-as a dançar.

Música em homenagem a São Gonçalo:

"Ora viva e reviva!
Viva São Gonçalo Viva!

Dançador de São Gonçalo 
Deve ter o pé ligeiro
Pra livrar de tropeções 
Na barroca do terreiro.

São Gonçalo diz que é santo
Mas ele tem seus amores
Hão de ver eles dançarem
Com um ramalhete de flores.

São Gonçalo de Amarante
Casamenteiro das velhas
Porque não casar as moças
Que mal lhes fizeram elas.

Ora viva e reviva!
Viva São Gonçalo Viva!"

A DANÇA EM CANA BRAVA (TO)

A fé e a devoção dos moradores do distrito de Cana Brava, no estado do Tocantins, ao beato São Gonçalo, considerado por muitos brasileiros um santo, ganhou uma interpretação que mescla arte, cultura popular e religião. A dança, produto de uma promessa realizada para o santo, reuniu no palco principal do X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2010, 18 artistas, em sua maioria mulheres. A apresentação retrata a vida de gente simples, que ao enfrentar a falta de hospital e posto de saúde, elegeu São Gonçalo como protetor dos problemas de saúde de milhares de pessoas em vilarejos e distritos do Brasil.

"Se meu filho sarar, vou dançar uma Roda de São Gonçalo". É assim que um dos guias (violeiros) do grupo, Joaquim Bento da Silva, na época com 59 anos, explica o motivo da dança que ele aprendeu com os avós. Ele afirma também que poucas pessoas estão acostumadas a se apresentarem para um grande público. A maioria dança até hoje pela fé e tradição passada de pai para filho e também na esperança de arranjar um bom marido para o casamento. "São Gonçalo ainda é casamenteiro das moças", revela o guia Joaquim.

As artimanhas de São Gonçalo são cultuadas com devoção na região há 80 anos, conforme explica o segundo guia da dança, Flávio Batista Conceição, na época com 69 anos. A rodeira Evanice Ferreira, que dança a Roda de São Gonçalo desde os 17 anos, hoje ensina a dança para as filhas. Durante aproximadamente 30 minutos, as mulheres dançam segurando um arco de bambu com flores, que carrega uma candeia de cera acesa.

A agenda de apresentações do grupo é apertada na seca. Nessa época, os terreiros das casas do município de Cana Brava são palco da festa, que dura a noite inteira. "Tem as meninas de 10 e 12 anos que também dançam, mas elas ficaram em Cana Brava para outra apresentação e não puderam vir ao Encontro de Culturas", esclarece o guia Joaquim.

"Minha mãe fez um voto para São Gonçalo para curar os pés dela", esclarece Evanice ao apresentar a mãe, Madalena Ferreira Bispo, na época com 50 anos. "Eu tinha um problema muito sério no meu pé aos 12 anos. Depois que eu casei, eu fui numa roda. Peguei fé e fui", conta, afirmando que o pé já está curado.

"É a primeira vez que a dança de São Gonçalo de Cana Brava acontece no Encontro", lembra Joaquim. Ele diz que a maioria das pessoas que dançam são seus parentes."Minhas primas, irmãs, todas dançam", diz. O grupo também não ensaia muito. "A gente só ensaia as meninas novas", revela o guia, que articula as viagens e apresentações do grupo.

Já Madalena é considerada a festeira de São Gonçalo. "As festas sempre acontecem no meu terreiro", fala orgulhosa. Ela avisou que no mês de agosto daquele ano, 2010, ia ter festa em sua casa. "Tem que ser nessa época porque tudo é feito no terreiro. E se chover não há dança", conclui.

A dança acontece sempre entre um cruzeiro e um altar com a estátua da imagem de São Gonçalo. "O cruzeiro é o símbolo de São Gonçalo", explica a rodeira Flávia. São duas filas e 24 rodeiras, na versão original. Pronta para entrar no palco, Flávia finaliza: "Isso tudo aqui é coisa da roça. Lá na cidade, depois da apresentação, a gente continua com a reza a noite toda".

   

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