Mineiro de Ouro Preto, Djalma Novaes Corrêa nasceu em 1942. Sua jornada musical começou em Belo Horizonte em um dos muitos grupos instrumentais de Bossa Nova. Ainda rapaz, mudou-se para Salvador, atraído pela efervescência cultural da capital baiana, onde estudou percussão e composição nos seminários da UFBA (Universidade Federal da Bahia), frequentado por figuras que se tornariam inspiradores para as futuras mudanças da MPB.
Conviveu com o erudito suíço Walter Smetak, o alemão Hans Joachim Koellreuter (com quem trabalharia na Sinfônica da Bahia), Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Jorge Ben e Gal Costa. Participou do início do movimento que mais tarde ficaria conhecido como Tropicalismo.
Fez trilhas sonoras para cinema, teatro e, em 1970, criou o grupo de música e dança Baiafro. Com esse grupo, excursionou ao exterior e gravou o disco Salomão - The Dave Pike Set and grupo Baiafro in Bahia. Participou do espetáculo Os Doces Bárbaros, com Caetano, Gil, Gal e Maria Bethânia, com quem excursionou à Itália. Viajou com Gil para o Festival de Artes Negras da Nigéria e gravou Refavela com o músico.
Participou do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. Lançou o LP Djalma Correa, todo de percussão, gravado pela Philips, na série Música Popular Brasileira Contemporânea. Incansável pesquisador, criador original, Djalma Correa expandiu os limites da percussão brasileira.
No Encontro de Culturas, Djalma apresentou estudos sonoros com as mais diversas fontes, ministrou oficina de percussão na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e fez show no palco principal do evento.
Oficina
Djalma iniciou a oficina no Encontro de Culturas dando oportunidade aos participantes de demonstrarem suas habilidades. Em seguida, começou o trabalho explicando o valor e o sentido da percussão, enfatizando a diferença que existe entre tocar e bater tambor. "Se bater eu grito, se tocar eu canto".
O percussionista lembrou a sua experiência na busca de sons e sobre a expressão corporal. Segundo o músico, todo o ser humano tem uma experiência, pois passou nove meses no ventre da mãe "ouvindo vários sons, o pulsar do coração, dos líquidos. Temos a possibilidade de efeitos sonoros ouvindo o próprio corpo", explicou.
Djalma Corrêa levou todos a pulsar com elegância e descontração, como se a África fosse aqui, numa qualidade sonora rica em timbres, num espaço-tempo onde todos puderam tocar e dançar em meio a um grande improviso.
"O principal objetivo da oficina é fazer essa fusão entre nossas raízes e os instrumentos de percussão. É manter, divulgar e explorar esta contemporaneidade sem perder o vínculo com nossas raízes, como os indígenas, quilombolas e a Congada ", concluiu Djalma Corrêa.
Palco
A amplitude da linguagem percussiva foi apresentada no palco do Encontro de Culturas com vários instrumentos, todos muito simples, mas com uma qualidade de som que surpreende. "Bronze, alumínio e ouro são elementos que proporcionam, cada um na sua medida, sons de escalas enormes", esclarece Djalma. No palco, ele tocava e explicava um pouco do que aprendeu pelas viagens e pesquisas pelo mundo. "Gosto de brincar com as possibilidades dos sons harmônicos", afirmou, ponderando sobre a dificuldade de controle destes sons.
O show no palco principal do X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2010 (a segunda vez em que o músico se apresentou no evento; a primeira foi em 2008) foi marcado pelo toque de diversos instrumentos rítmicos, dos tradicionais atabaques e tambores até uma bruaca (também conhecido com buraca), da comunidade remanescente quilombola do Sitio Histórico Kalunga. Nas mãos do percussionista, que viaja o mundo a procura de sons, todos os instrumentos do palco ganharam vida e foram explorados em sua natureza harmônica, de escalas e de altura, graves e agudos.
O público ficou impressionado com a qualidade não só rítmica de Djalma, mas pela criatividade em encontrar sons até em chips de chaveiros. Sorrindo e atento, o público observou como o artista ritma sons eletrônicos de miniaturas de animais, como elefante e vaca, e até o som do choro de um bebê, tudo dentro de uma panela que também serviu de instrumento sonoro para o mestre percussionista.
De acordo com Djalma, a triangulação índio-negro-europeu produziu uma diversidade rítmica ímpar no Brasil. Essa mistura ele conhece bem, porque é a proposta de muitos músicos de câmara e jazzistas internacionais, além de diversas personalidades da música brasileira, como Jorge Ben, Gilberto Gil e Caetano Veloso, com quem também já tocou. "Essa trilogia percussiva no Brasil é única no mundo. É uma fusão maravilhosa que varia de acordo com a cultura de cada região do País", conta, orgulhoso.
Um exemplo é o badalar dos sinos feito pelos escravos nas igrejas da cidade de São João Del Rei, em Minas Gerais. "É quando os ritmos dos terreiros sobem para a torre das igrejas". O pesquisador afirma que já foi sineiro em Minas Gerais.