Procópia dos Santos Rosa é uma das muitas lideranças femininas do Sítio Histórico Kalunga. Filha de Manoel Pereira e Maria dos Santos, em 2005 foi uma das 52 brasileiras indicadas ao prêmio Nobel da Paz. Nasceu em terras Kalunga, na área rural do município de Monte Alegre. Por anos viveu sem conhecer o que tinha depois das serras que a distanciavam de um mundo diferente do que conhecia ali no quilombo. Ela até tinha notícia dos avanços tecnológicos e dos benefícios dos municípios vizinhos, mas não entendia porque aquilo não chegava à sua comunidade.
Foi com 60 anos que Dona Procópia saiu de Monte Alegre pela primeira vez para ir à capital do Estado, Goiânia, para reivindicar escolas, asfalto e energia. “Todos pensavam que era besteira. Eu e uma velha amiga, a Santinha, já falecida, fomos as únicas que tivemos coragem. E deu certo, viu”, explica Dona Procópia, que saiu vitoriosa do Palácio do Governo, levando escola e energia à sua comunidade.
"Reclamei as coisas que nós precisava. As coisas foi chegando. E pus os três municípios nos Kalunga”, conta ela sobre a inclusão das comunidades de Cavalcante, Teresina e Monte Alegre no território do Sítio Histórico Kalunga, como remanescentes quilombolas. “Não conto vantagem, não, só conto o que precisa e o que nós sofreu. Eu mesmo não tinha registro, quem me registrou foi meu filho”.
“Mas, ainda não tô satisfeita não, viu?! Ainda falta muito! A gente precisa de asfalto, água tratada. E não desses programinhas de pesca e criação de horta. Mas tâmo no caminho. Se Deus abençoar eu ainda arranjo alguém pra continuar nessa luta minha, porque os Kalunga não pode acabar!”. Procópia incentiva a comunidade a se interessar pelas discussões políticas por acreditar que a cultura Kalunga só continuará viva se permanecerem unidos.
VIDA DE CULTURA E LUTAS
Desde que se entende por gente,ela vai à festa do Império no Vão de Almas. “Acho que foi Deus que deixou para a gente, minha vó já ia desde nova. É a tradição”, conta.
“Quando eu vou, é só assistir a festa, mas este ano acho que não vou, não. Tô ruim das pernas, menina. E lá não tem luz, não tem banheiro. Na minha comunidade já tem, quero arrumar para tudo ter também”.
Uma das principais lutas de Dona Procópia foi contra a construção de uma barragem no rio Paranã. “Reclamei. Pedi com amor e carinho. Nós mora entre a serra e o rio, apertadinho, lá no nosso lugarzinho sossegado. Se estourava a barragem, alagava nós. Tava perigoso, teve barragem que estourou já porque não tava bem feita”.
A comunidade quilombola, formada por negros escravizados fugidos, ficava isolada da cidade, com seu ritmo e costumes próprios. E foi com esse argumento também que Dona Procópia conseguiu se defender, com a sabedoria de quem nunca foi para a escola, mas aprendeu com a vida e as necessidades. “Falei que nós não podia sair, porque não sabia ler, escrever, onde ia trabalhar? Lá no nosso lugarzinho nós planta, nós cuida. Lá que quero morrer, com meu povo. Ó o tanto de sem terra! Para que tirar nós de lá? Para viver só os ricos? Por que fazer um serviço desses com os pobres? Mas Deus ajudou que parou”.
A disputa já tem muitos anos. “Tem mais de 20 ou 30”, calcula a senhora. E acredita desacreditando que não corre mais perigo. “Tô com fé em Deus que morro e meus filhos vão ficar em paz lá”.
FUTURO
O futuro da comunidade sempre esteve nas mãos de Dona Procópia. Antes da luta por direitos, era a luta pela vida. “Era parteira, né? Lá não tinha doutor, hospital, mulher tinha os filhos na roça, hoje elas só ganha menino na cidade. Também as parteiras tão tudo velhas”. E quantas crianças ela já ajudou a nascer? “Ah, não dô conta, não, de contar. É demais, demais, demais. Por onde ando é ‘mãe Procópia’, ‘mãe Procópia’...” O segredo do trabalho? “Pegá com Deus e coragem.”
Com olhar afiado para sua comunidade, ela emenda a história de sua vida aos planos para melhorar a região. “Agora tô pedindo posto de saúde, porque quando adoece o frete pro hospital é caro e carro da prefeitura não tem”.
Aos 84 anos, a senhora de fala tranquila diz que sua saúde não é mais a mesma. “Tô ruim das vistas também. Quando lembro que era tão sadiona... E é pesado mexer com gente sem saber ler”. Mas ela logo se anima novamente e fala da família. “Meus netos tão tudo formando, minha neta é professora de ensino médio lá no meu terreiro. Essa que vai pegar meu batidão”. De avó para neta, uma tradição de mulheres fortes. “Antigamente só ia os homens na cidade, mulher não ia, não. Era só cuidar do filho, do marido. Agora as mulher tão andando mais que os homens, ó o tanto de Kalunga aqui!”.