Durante a Semana Santa, um grupo de mulheres se dispõe a rezar pelos mortos, pois acreditam que sua reza alimente as almas, sobretudo as que ainda vivem vagando e em desespero.
As Encomendadeiras de Almas de Correntina, senhoras do interior da Bahia, representam uma antiga tradição de “livração” dos espíritos, hábito milenar, com belos cantos e melodias. Com estes cantos tradicionais, acreditam que as almas alcançarão a luz celeste e o descanso. O conjunto desfila e para várias vezes para cantar.
Esta é uma tradição de herança ibérica, que reúne um conjunto de devotos que, a altas horas da noite, sai pelas ruas no período da quaresma, entoando cânticos lúgubres em louvor às almas, rogando rezas em seu sufrágio e exortando os fiéis pecadores a corrigirem seus erros, sob a pena de serem condenados ao inferno.
Não se sabe quando a manifestação foi introduzida no Brasil, mas as notícias mais remotas divulgadas datam do começo do século XIX. Uma tradição passada de mãe para filha, há gerações.
ENCONTRO DE CULTURAS
As Encomendadeiras de Almas de Correntina participaram do IV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2004.
Na ocasião, fizeram um procissão que saiu da igreja da Vila de São Jorge e foi até o cemitério, onde cantaram e rezaram para velar os espíritos. Uma dos doze integrantes é Maria da Glória Barbosa, de 42 anos. Na época há mais de 15 anos no grupo, ela afirma que as Encomendadeiras de Almas é o único grupo dessa essência existente em Correntina.
Shirlene Araújo, de 26 anos, foi introduzida ao grupo pela sogra, "para perder o medo de cemitério", como ela conta. Deu certo com ela, mas, na Vila de São Jorge, durante o Encontro, muitos dos visitantes preferiram aguardar do lado de fora do cemitério, enquanto as mestras terminavam as orações.
A FOLIA DE REIS DE CORRENTINA
O grupo também trouxe ao Encontro de Culturas a tradição da folia de reis. Todo o ano, os foliões dos grupos de reis, como são chamadas as pessoas que tocam e cantam de casa em casa anunciando a chegada do menino Jesus, dão vida ao Reisado em Correntina (BA), visitando os presépios, conhecidos regionalmente como lapinhas.
Em cada residência, os foliões são recebidos com biscoitos, petas, café e até mesmo almoços e jantares. Eles passam duas semanas visitando as casas e fazendo muita festa. Os grupos adotam um ritmo que pode variar de puxador para puxador, formados por homens de origem simples, que tocam, cantam e executam coreografias, utilizando instrumentos rústicos confeccionados, a maioria, por eles próprios. Na cidade baiana, o festejo é realizado tradicionalmente entre os dias 24 de dezembro e 6 de janeiro.