Não confundam. Não é catira nem folia, é fandango. O engano se dá pela semelhança nos ritmos, pelo bater de pés e palmas durante as danças e a religiosidade presente em todas as manifestações. Há grupos de fandango que participam dos giros da Folia do Divino Espírito Santo, tradições com grande devoção religiosa e que utilizam os mesmos instrumentos. No entanto, mesmo com aspectos convergentes, o fandango possui história e características próprias.
Formado por integrantes de diferentes grupos do litoral sul de São Paulo, os Fandangueiros de Cananéia participaram do XII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2012, para mostrar um pouco desse costume pouco conhecido no Centro Oeste e que, por um período, ficou adormecido até mesmo nas regiões sul e sudeste, berços da manifestação.
Originalmente, o fandango está ligado aos mutirões realizados na região do litoral sul. Quando um morador precisava de ajuda dos vizinhos para preparar o plantio, colher as sacas ou até mesmo puxar uma canoa de uma área de difícil acesso até o rio, ele reunia a todos e, como pagamento, oferecia o fandango, que é composto por cantorias e danças. “A pessoa falava: olha pessoal, tal dia vai ter mutirão, o dia inteiro. Trabalhava o dia inteiro, sem parar. Aí, o dono da roça, que tinha chamado o povo, oferecia o fandango e a janta, e assim ia até o outro dia”, contou Laerte Veríssimo, fandangueiro desde criança.
Com cavaco, rabeca, caixa, pandeiro e viola de cocho, qualquer tema pode virar música. Até o Encontro de Culturas ganhou versos rimados cantados pelos músicos.
DIFICULDADES
“O fandango, quando modernizou e chegaram a sanfona e outros instrumentos, foi praticamente extinto em nossa região. Depois de treze ou quatorze anos ele ressurgiu e, graças a Deus, está se espalhando novamente”, contou, na época, o violeiro Beto Pereira, que toca originalmente no Grupo Esperança.
Outro aspecto ressaltado por Laerte Veríssimo, integrante do grupo que se apresentou na Vila de São Jorge e membro do Violas de Ouro, é o desenvolvimento do mundo moderno, que desuniu a comunidade ao não proporcionar momentos coletivos, seja de trabalho ou de diversão. “Quando o progresso chegou em alguns lugares, o que ele fez foi acabar com esse tipo de tradição. Agora tem televisão, então a pessoa pensa que não vai dar nada ou fica com preguiça”, destacou o fandangueiro.
Por fim, grande parte das famílias mora em área de preservação florestal da Mata Atlântica. Com isso, os moradores não podem mais desmatar para criar suas plantações, mesmo que em pequena escala. As canoas para pesca, tão características da cultura caiçara, das zonas litorâneas, também sofrem com um grande processo burocrático para a retirada da madeira. Com esses entraves, a cultura dos mutirões perdeu forças e, consequentemente, impactou negativamente na tradição do fandango.
“Eu moro dentro da Ilha do Cardoso, uma área de preservação. Para a gente, tudo é mais difícil, mas graças a Deus nós conseguimos muitas coisas através do fandango. Eu tenho dois filhos que já tocam fandango. Um toca pandeiro, o outro toca caixa. A intensão é que a gente consiga trazer mais gente jovem para o nosso lado. Durante quatro meses nós vamos fazer oficinas de rabeca para que a gente consiga passar essa tradição mais à frente”, contou Izidoro Leodoro, integrante do grupo e que também se apresenta com o Família Neves.
REVITALIZAÇÃO
Fernando Oliveira, biólogo e um dos gestores do Ponto de Cultura Caiçaras, é um dos responsáveis por reacender a chama fandanga na comunidade. Segundo Fernando, seu contato inicial com Cananéia se deu quando ele foi estudar os golfinhos da região. Porém, ao conhecer a localidade e toda a cultura, a paixão foi instantânea. Ao conversar com Beto Pereira e perceber que a tradição quase não existia mais, ele decidiu convidá-los para se apresentarem para os grupos de universitários da cidade e áreas vizinhas.
Em 2005, com a abertura do edital para a criação de pontos de cultura, Fernando Oliveira inscreveu um projeto para a retomada da tradição, incentivando os grupos de fandango e fazendo o registro dos mutirões e das danças. Somado à criação desse ponto de cultura, um grupo do Rio de Janeiro desenvolveu um projeto para a criação do Museu Vivo do Fandango, fortalecendo e fomentando a cultura nas regiões de São Paulo e Paraná.
Outro passo importante e que ainda está em trâmite é o reconhecimento da tradição como Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan.
MUTIRÃO
No início, o fandango era tocado em mutirões de trabalho como forma de pagamento pela ajuda fornecida. Atualmente, com essa retomada da tradição, há um mutirão para o fortalecimento da cultura caiçara no litoral sul de São Paulo. “É como se fosse um momento de mutirão pelo fandango. E vamos mais longe: através desse projeto, nós conseguimos fazer o registro em vídeo e fotos de alguns mutirões que não aconteciam há muito tempo”, finalizou Fernando Oliveira.