As origens da Folia do Divino remetem à Idade Média. Nesta época, teria aparecido em Portugal um monge considerado santo. Após anos em retiro pelo deserto, a ele foi revelada a vinda de uma nova era que transformaria o relacionamento do homem com a Terra: a Era do Espírito Santo. Nessa perspectiva, a humanidade já havia ultrapassado a época do Pai, ou seja, o Antigo Testamento. A era do Espírito Santo seria marcada pelo advento de uma implantação definitiva da paz, do amor e da bondade entre os homens.
Devido à resistência da igreja oficial, muitos adeptos desta nova crença vieram para o Brasil, logo após sua colonização e a conquista dos espaços mediterrâneos, ocupando, principalmente, terras nas regiões que hoje são os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Em Crixás, até 1962, a festa da Folia do Divino Espírito Santo era organizada da seguinte maneira: o imperador, sempre um fazendeiro, vinha para a cidade um mês antes da festa, acompanhado de sua família. A equipe das folias era estabelecida no ano anterior. Logo, o imperador se encarregava de fazer as compras em Goiás Velho. Açúcar, pinga, cravo, canela, pimenta-do-reino, talheres, pratos e vasilhames eram itens indispensáveis. Neste mesmo período, era preparada a carne-de-sol para a "Maria Zabé", prato típico na mesa da festa.
Durante os festejos, danças e coreografias eram apresentadas. Batuque, ponto, catira, roda inteira, carneiro, saia preta, engenho novo, buzuntão, moçambique, caburé, chorada, veadeiro e cururu eram alguns dos ritmos mostrados. Essas danças também eram apresentadas após a janta de entrega das folias. A participação da igreja na festa do Divino Espírito Santo envolvia a presença do padre no último domingo de festa para celebrar a missa, os batizados e casamentos. No final, parte da renda da festa ia para a igreja e outra parte para as despesas do imperador.
Após 1962, ocorreu uma interrupção nas festas tradicionais de Crixás, como resultado da demolição da Casa Grande. As cavalhadas, por exemplo, encerraram suas apresentações em 1954, retornando somente em 1989, com o esforço do casal Joaquim Xavier Maciel e Ana Ferreira de Carvalho Maciel, que faleceram no final de 2008 em um acidente de ônibus.
As folias tiveram seus giros interrompidos durante 12 anos, o que provocou algumas perdas para a manifestação, principalmente em relação aos cânticos e coreografias tradicionais da época. Isso ocorreu porque a demolição da Casa Grande deixou os foliões sem um lugar para realizar a festa e a ausência do padre em muitas festividades desmotivou os organizadores, que já estavam em idade avançada.
As folias de São Patrício e do Sertão retornaram em 1974, no entanto, girando somente dentro do município com um giro menor, variando de 13 a 15 dias. Neste caso, a saída era no segundo sábado do mês de junho e a entrega era na última sexta-feira do mês, sendo que as corridas das cavalhadas ficavam para o último sábado e domingo de junho.
Já a folia de Santa Rita retornou somente no ano de 2004. A partir daí, todas as folias passaram a ser coordenadas pela Associação de Catireiros e Foliões de Crixás, em conjunto com a Paróquia Nossa Senhora da Conceição.
PERSONAGENS
Imperador – É responsável pela coordenação da festa juntamente com o pároco e alguns capitães. Deve arcar com grande parte dos gastos coletivos da folia desde o início do giro. Recebe as pessoas da cidade e visitantes em sua casa e acompanha a alvorada e a procissão das bandeiras e da coroa ao final da festa.
Capitão do mastro – É responsável pela ornamentação do mastro da Bandeira do Divino, providencia o seu levantamento e cuida dos fogos e do café da manhã do domingo.
Capitão da fogueira – É responsável pela lenha e pela construção e queima da fogueira feita durante o levantamento do mastro e da bandeira. Também toma conta da queima de fogos.
Comissão da folia – É a equipe que elabora a relação dos pousos e da folia e organiza o festejo de uma maneira geral.
Alferes – É o comandante responsável pela ordem da folia durante o giro. É ele quem carrega a Bandeira.
Violeiros – São os tocadores de viola que improvisam os cantos. São dois violeiros e dois ajudantes por folia.
Caixeiro – Toca a caixa, um pequeno tambor usado para acompanhar os cânticos.
Salveiro – É quem conduz os foguetes que são estourados para avisar a chegada da folia nas casas.
Foliões – São os devotos que acompanham a Bandeira tocando pandeiro, ajudando os cantadores e dançando.
Palmeiro – É quem puxa as palmas.
DANÇAS
Dança do tambor – De origem africana, relembra as festas das senzalas. Várias pessoas cantam músicas com versos repetidos em uma grande roda. Os instrumentos são: o tamboriu, tambor grande, de mais ou menos 70cm de altura, feito de tronco oco; o caxambu, tambor médio, também feito de tronco oco; e o surdo, pequena caixa de madeira. É dançada por homens e mulheres que fazem coreografias individualizadas e usam lenços para convocar seus pares.
Catira ou catiretê – É dançada ao som da viola e pandeiros e caracteriza-se por ser animada e barulhenta. Os parceiros do catira sapateiam com força sob aplausos de todos, cantando modinhas que remetem a acontecimentos, como amores desfeitos ou platônicos, ou de cunho irônico.
Veadeira – É semelhante à catira, porém o sapateado é mais rápido.
Batuque – É dançado na chegada da folia nos pousos. O sapateado frenético é dançado aos pares e continua até que todos dancem. É encerrado com os violeiros dançando, cantando e batendo palmas.
CRIXÁS
O município de Crixás integra a microrregião de São Miguel do Araguaia, localizando-se no Vale do Araguaia, em Goiás. Banhado pelo rio Crixás-Açu, sua história remete à época em que os bandeirantes adentraram as terras brasileiras em busca de ouro e pedras preciosas. Segundo relatos históricos, o arraial de Crixás recebeu este nome devido aos indígenas que habitavam a região naquele tempo.
Quanto à data de fundação, toma-se por base que Vila Boa (atual Cidade de Goiás) foi fundada em 1726. A partir desta historiografia, o ano mais provável para a fundação de Crixás é 1734, mesmo ano em que foi fundado o município de Niquelândia, coincidentemente pelos mesmos fundadores, Manoel Rodrigues Tomás e Domingos do Prado.
No livro Crixás: nossa terra, nossa gente, Maria Madalena de Lima cita um trecho da monografia de José Asmar (Crixás: do berço de ouro à luta pela vida), de 1988, que revela a ausência de dados referentes à participação dos indígenas na história da cidade:
“(...) Destes índios vindos de Goiás para alguns pontos do Triângulo Mineiro, principalmente nos vales dos rios São Marcos, Parati e Urucuia. Portanto, fala-se muito pouco sobre o índio Crixá. Registra-se a matança na fazenda Poço Grande (1838) e um massacre dos Avá-Canoeiro na fazenda Alagado (1855). Não se fala, portanto, de bravura nem outros feitos do índio Crixá”.
Os escravos, por sua vez, foram mandados para o município quando os indígenas não sucumbiram à escravização. Desta forma, à medida que os indígenas desapareciam, aumentava-se o número de escravos. Quanto aos castigos, em Crixás foi usado o chamado esbulho, que envolvia o açoite e a força. Os filhos dos brancos com suas escravas eram criados pela esposa ou mãe do branco, a quem aprendiam chamar de “dindinha”.
Em 1740, o povoado passou de freguesia de Nossa Senhora da Conceição para Arraial de Crixás. E no dia 10 de janeiro de 1755, foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Crixás. A região chegou a ser rica e o povoado atingiu considerável desenvolvimento. No entanto, a quantidade de impostos cobrados por Lisboa traçou o rápido destino do Ciclo do Ouro, em Goiás. Crixás, desprivilegiada pela posição geográfica, sofreu com o declínio da mineração.
Em 1770, o povo crixaense passou a se dedicar à agricultura de subsistência. Desta forma, a movimentação na cidade era mínima na maior parte do tempo, sendo as festividades o maior atrativo da área urbana. Crixás chegou a ter um grande e rico patrimônio, no entanto, a maioria das casas em estilo colonial foi demolida para dar lugar a construções modernas.
ENCONTRO DE CULTURAS
A Folia de Crixás esteve presente em muitas edições do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, desde 2006, quando os foliões vieram pela primeira vez. No texto abaixo, relembremos a participação em 2014, pelas palavras da repórter do Encontro, Narelly Batista:
De um em um os foliões iam entrando na Capela de São Jorge com a bandeira do Divino Espírito Santo. À frente do grupo, tocando suas violas, os irmãos Silveriano e Sebastião, recém-chegados em São Jorge, começavam a puxar suas cantigas abençoando a cidade e o Encontro de Culturas. O grupo tinha acabado de chegar na vila. Embora o giro de folia estivesse programado apenas para o dia seguinte, em sinal de respeito os foliões se encaminharam à capela local.
Tradicionalmente, o grupo de Crixás, cidade localizada a 351 km de Brasília, no noroeste goiano, participa do Encontro. São exatos sete anos. Com jovens de 13 anos até setentistas, este ano, após fazerem suas rezas e cânticos na capela, os foliões se encaminharam à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, onde foram recebidos pelo anfitrião, que ofereceu o pouso: Juliano Basso, coordenador e idealizador geral do evento.
No dia seguinte, seguindo a programação, mestre Severiano e seu grupo levantaram cedo e se prepararam para o Giro. Na tradição, sempre com a bandeira do Divino à frente do grupo, os foliões percorrem as casas da cidade, levando as bênçãos de Deus, por meio de cânticos, aos lares que os recebem. Nessas visitas, os anfitriões recepcionam o grupo com doces e bolos típicos da região. Durante a festa, há a arrecadação de donativos (esmolas, como citam nas músicas) e os devotos fazem ou pagam promessas feitas ao Divino Espírito Santo.
No grupo, a maioria faz parte da família de Silveriano (68) e Sebastião (65). Manifestação cultural e religiosa ensinada de pai para filho, o grupo que é composto ainda por outras famílias e consegue fortalecer a tradição envolvendo os mais novos nas apresentações. Trabalhadores rurais, os dois irmãos não se recordam ao certo com que idade começaram a participar da folia, mas estimam que tinham entre 16 e 19 anos quando passaram a acompanhar o tio, que era dono e Imperador da Folia de Nova Glória.
Silveriano acredita que tudo que conseguiu ao longo de sua atuação na folia foi graças a Deus, por ter dado a ele o dom de tocar. A história dos irmãos é cheia de superação e conquistas. Por anos, foram apaixonados pela atividade dos violeiros da folia, mas, como não tinham recursos financeiros para ter um instrumento, planejaram e confeccionaram uma viola com braço de buriti e linha de pescar. Especularam algumas formas de afinar o instrumento e começaram a tocar. Um dos tios dos dois observou o interesse dos meninos e os presenteou com violas e lições. Em pouco tempo, os meninos já sabiam tocar o instrumento. Foi, então, que o tio passou a função aos garotos durante um dos giros. Embora assustados, cumpriram o dever à altura. Desde então, não pararam mais.
Além dos cantores e violeiros, compõem o grupo os catireiros, que fazem sua dança com o bate-pé, o bate-mão e os pulos. Os catireiros são acompanhados por um violeiro e pelo seu "segunda", outro violeiro ou cantor, que entoa a cantoria uma terça abaixo ou acima. Durante a dança, os dançarinos, posicionados em duas filas, uma de frente para outra, vão trocando de lugar e fazendo giros, tudo em uma coreografia ritmada pelos violeiros.
O GIRO DA FOLIA NA VILA DE SÃO JORGE
Pela manhã, os foliões saíram da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge pelas ruas da Vila de São Jorge para dar o giro de folia. Igualmente organizados como quando estão em Crixás, passaram de casa em casa para abençoar o ambiente e as famílias.
A primeira casa visitada foi a da jovem família de Fal, 36 anos. O jovem, que possui longos dreads no cabelo e um 'quê' de esoterismo em sua residência, recebeu o grupo de foliões em sua casa sinceramente contente. Questionado sobre o que achou dos visitantes ilustres, Fal falou um pouco sobre sua vida. “Na minha vida já tenho todo esse sincretismo envolvido. Fico satisfeito em ver São Jorge recebendo todas essas diferentes culturas com o mesmo sentimento de aprovação e respeito”, pontuou.
Outra moradora que ficou satisfeita com a visita foi Gildete (67). A senhora se emocionou com os foliões ao lembrar que seu pai oferecia pouso em Águas Lindas de Goiás a outros grupos de folia que levavam a bandeira do Divino Espírito Santo. Lembrando-se do pai e da tradição, Gildete chorou.
De acordo com o grupo, a Folia deve ser sempre tratada com fé, humildade e respeito. Assim foi em São Jorge.
HOMENAGEM A JOAQUIM MACIEL
No IX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2009, o palco montado na quadra de esportes da Vila de São Jorge foi o ponto de encontro de pessoas de todas as idades, vindas de vários lugares do país. Manifestações culturais do interior de Goiás deram as boas vindas ao festival. Muita religiosidade, palmas fortes acompanhadas por batidas de pés no tablado do palco e danças ritmadas marcaram o primeiro dia de apresentações.
Logo após a apresentação da Comunidade Kalunga, os catireiros da Folia de Crixás subiram ao palco com a bandeira do Divino em mãos para se apresentarem e fazer uma homenagem. A marcação das palmas e do sapateado davam ritmo ao publico, que acompanhava a catira atentamente e com a maior alegria. A segunda dança apresentada pela Folia de Crixás foi a Veadeira. Segundo José Maciel, foi uma apresentação especialmente feita para o Encontro. Com uma música mais rápida, passos ritmados e coreografados, os catireiros iam rodando entre os outros integrantes do grupo e batendo o pandeiro no chão e na sola do pé. A Veadeira acendeu ainda mais aqueles que se divertiam no chão e nas arquibancadas
Um dos pontos altos da festa foi a homenagem feita a Joaquim Maciel, ex líder do grupo, falecido em 2008. José Maciel, filho do ex líder declamou uma poesia escrita por seu pai, que não teve oportunidade de lê-la durante o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Após a poesia, Pereira da Viola, amigo de Joaquim Maciel, tocou uma música em homenagem ao companheiro.
Poema de Joaquim Maciel
Crixás, minha cidade
Terra de meus pais, raiz de minha felicidade
Terra do ouro e da criação do gado
Que brota a esperança da prosperidade
Mas foi no seio de nossa família
Que fortaleceu a tradição de nossa folia
Iluminada pela fé e devoção
No batuque da catira do alegre folião
Que diz "viva a todos que prestarem atenção"
Deixa o Divino entrar e tocar seu coração
Abençoar com todos seus nós, no verso da oração de proteção
E no ritmo forte da catira, alegra e contagia
Conquistamos novas fronteiras
Novas terras conduzindo nossa bandeira
E na raiz dessa terra brasileira
Tão rica e tão amada
Nasceu a cultura do festival da Chapada
Que une nossa catira com os Kalungas e as congadas
Povo educado de princípios fortes
Só me desejam boa sorte
Obrigado meu amigo e meu sobrinho querido
Obrigado jornalistas e todos os artistas, pela Casa de São Jorge
E amanhã se eu faltar
Não quero ver acabar a tradição deste lugar
Gente amiga e requintada
Calorosa e animada
Que despertou minha paixão pela cultura tão bem valorizada
Repleto de felicidade
Vou contar pra minha amada
Quando chegar na minha cidade
A magia do festival da Chapada
Fica aqui minha gratidão
Nas palmas da catira da família do folião
E agradeço de coração
E viva a todos vocês que prestaram atenção"