Folia do Divino de Formosa
Cultura Tradicional

Folia do Divino de Formosa

Uma particularidade da festa de Formosa é que esta se desenvolve em duas folias separadas: a Folia da Cidade e a Folia da Roça. Ambas ocorrem simultaneamente e só se unem no sábado, véspera de Pentecostes, quando é oferecido um almoço comunitário no "Divinódromo", local construído pela prefeitura da cidade para a junção das folias. .

Uma particularidade da festa de Formosa é que esta se desenvolve em duas folias separadas: a Folia da Cidade e a Folia da Roça. Ambas ocorrem simultaneamente e só se unem no sábado, véspera de Pentecostes, quando é oferecido um almoço comunitário no "Divinódromo", local construído pela prefeitura da cidade para a junção das folias. 


A Folia se manifesta como um festejo com ritos, crenças, expressões estéticas, performances, rezas e danças regionais. Ela é formada por manifestações culturais tradicionais comuns entre as comunidades, transmitidas com base na memória coletiva e na oralidade.

Em Formosa, a festa é comemorada desde 1938. No entanto, entre 1956 e 1975, foi proibida na cidade por padres que a achavam muito "mundana" e "secularizada". Em 1975, o bispado reautorizou as celebrações. 

A Folia da Roça é organizada pela Pastoral dos Foliões, composta por nove membros. A Pastoral tem caráter diocesano e, por isso, envolve pessoas de outras cidades em seus trabalhos. Esta Folia é caracterizada por danças regionais, como a Catira, o Lundu e a Curraleira.


Já a Folia da Cidade fica a cargo da Associação dos Foliões, formada por 20 pessoas. Esta associação é responsável por todas as folias dos santos populares que ocorrem na cidade.

As Folias da Cidade e da Roça começam no mesmo dia, quando os dois grupos alvoram e saem pela cidade, às quatro da manhã, em carreatas distintas. No decorrer da semana, as atividades no meio urbano são basicamente celebrações litúrgicas e rezas. No sábado anterior ao Pentecostes, acontece uma grande procissão, dirigida pelo imperador e pelo folião responsáveis pela festa daquele ano. Este cortejo passa por várias casas da cidade, onde são servidos lanches para todos.

A procissão é acompanhada por um grande número de jovens que, animados pelas músicas da banda municipal, incorporam um clima de "Carnaval de rua", ausente na Folia da Roça. Ainda no sábado, as duas Folias encontram-se para almoçar no "Divinódromo", local construído pela prefeitura de Formosa para acomodar os festeiros durante a Folia. Os festejos encerram-se no dia seguinte, à noite, com uma procissão solene do imperador e do folião até a missa na Catedral da cidade.


Ao final da missa, são sorteados o Imperador e o Folião do ano seguinte.

Durante os festejos do Divino, os festeiros e turistas que visitam a cidade podem assistir ao sapateado dos dançarinos de catira, comer a comida caseira nos pousos, acompanhar os longos cantos litúrgicos dos homens, as ladainhas das senhoras e apreciar os versos da moda de viola. Por ser uma festa de caráter religioso muito forte, a Festa do Divino em Formosa mantém sua organização por meio de doações da comunidade, sendo que cada um doa com aquilo que puder.


ORIGEM DA FOLIA DE REIS

A origem da Festa do Divino Espírito Santo remonta às celebrações religiosas realizadas em Portugal a partir do século XIV, nas quais a terceira pessoa da Santíssima Trindade era festejada com banquetes coletivos designados Bodo aos Pobres, com distribuição de comida e esmolas. Algumas referências históricas apontam que a Festa foi instituída em 1321, pelo convento franciscano de Alenquer, sob proteção da Rainha Santa Isabel de Portugal e Aragão.

As celebrações portuguesas aconteciam cinquenta dias após a Páscoa, comemorando o dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu do céu sobre os apóstolos de Cristo em forma de línguas de fogo, como aponta o Novo Testamento. Desde seus primórdios, os festejos do Divino, realizados na época das primeiras colheitas no calendário agrícola do Hemisfério Norte, são marcados pela esperança na chegada de uma nova era para o mundo dos homens, com igualdade, prosperidade e abundância a todos.

A devoção ao Divino encontrou um solo fértil para florescer nas colônias portuguesas, especialmente no Arquipélago dos Açores. De lá, espalhou-se para outras áreas colonizadas por açorianos, como os EUA e diversas regiões do Brasil. É provável que o costume de festejar o Espírito Santo tenha chegado ao nosso País já nas primeiras décadas de colonização. No entanto, existe a crença de que a Festa chegou no final do século XVII, trazida pela Princesa Isabel.

Hoje, a Folia do Divino pode ser encontrada em praticamente todas as regiões brasileiras. Apresenta características distintas em cada local, mas mantém em comum alguns elementos, como a pomba branca e a santa coroa, a coroação de imperadores e a distribuição de esmolas.



CANTOS DA FOLIA DO DIVINO no
NORDESTE GOIANO

Versões de Quintino Borges de Sousa, de Formosa, presentes no livro Folclore Goiano, de José A. Teixeira.

Chegada da bandeira

1
Qui anti di céu i terra
Deus Padi .já ixistia
É u primeiro sem segundu
Qui feis u mundo em seis dia.
2
Feis u sóli i feis a lua
Cum todas bemfeitoria,
Feis u céu e feis a terra
I a luiz qui alumia.
3
Feis a lui qui alumia
Qui desaparece todas tréva,
Cum u barru feis Adão
Da custela feis a Éva.
4
Colocô nu paraizo.
Todos dôi éra inocenti,
Adão e Éva pecaru
Tentadu da serepenti.
5
Pelu pecadu originali
Pecô Éva i Adão,
Pur essa primêra familha
Começou-se a geração.
6
Pur essa familha humana
Começou a santidadi,
Vem nu mundu Deus Filhu
Di uma pura virgindadi.
7
Bençoada foi a hora
Qui Jesuis Cristu nasceu,
Vêi dar o mundu a luiz
I u sol resplandeceu.
8
Vinti cincu di marçu
Foi qui u anju anunciô,
Quem havia di sê mãi
Quem du mundu é sarvadô.

 

Despedida da bandeira

1
Lôvemu a luiz divina
A luiz qui compõe o mundu,
A luiz dus treis mistéru
Di um primêro sem sigundu.
2
É um só - Deus verdaderu,
Nas treis pessôa sincerra,
A providença divina
Formô céu, mar e terra.
3
Feis o céu e feis a terra
Feis o sul e o poenti,
Ó qui belissimu cruzêru
Entre o nórte i u nascenti!
4
Du nascenti nasci o sol,
Qui clareia u mundu em geral,
Ondi nasci os treis mistéru
Du pai eternu rial.
5
Pai etornu onipotenti
Qui dum verbu se incarnô
Vei uma pomba sagrada
Sobro a corôa sentô.
6
Lá do céu vei essa pomba
I dois anju acumpanhô,
Vei resplandecé nessa casa
I é aqui que posô.
7
Resplandeceu nessa hora
U santissimu sacramento,
Arreuniu seus devoto
Pra dá us agradecimentu.
8
Deus vos pagui esta dispêsa,
Deus vus pagui seu trabaiu,
U Divinu quem vois pagui
Esti tão bão agasaiu.
9
Já arvorô pra í simbora
Éssa pomba verdadêra,
Quem quisé dispidi dela
Vem bejá essa bandera.
10
Homi, muié i mininu,
Vai sainu cá pra fóra,
Vem dispidi du Divinu,
Qu'êle já vai simbora.
11
Já arvorô pra í simbora
Esta divina pessoa,
Leva os fulião na asa
E o Alferi sobri a corôa.
12
Dispidinu dispidida,
Em lovô de São José,
Adeus té nu anu
Si u Divinu quisé.


ENCONTRO DE CULTURAS
*texto da colaboradora do Encontro, Sinvaline Pinheiro

No IX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2009, houve uma participação especial da Folia do Divino Espírito Santo de Formosa (GO), denominada "Folia da Roça".

Segundo a coordenadora do grupo, dona Vera Couto, essa Folia chegou à cidade de Formosa pelo Vale do São Francisco, por São Paulo e Minas, trazida pelos tropeiros de gado, com primeiro registro feito em 22 de agosto de 1838 por meio da Lei Provincial de Goiás. Assim teve início a festa do Divino Espírito Santo no Arraial dos "Couros", hoje a cidade de Formosa.

Para a realização dessa festa, a comunidade colabora com donativos, pois os gastos são muitos. Segundo o Sr. Francisco de Paula Couto, esposo da coordenadora e integrante da folia, o número de foliões na saída é de 230 a 250 cavaleiros. Já o pouso final reúne até 400 pessoas.

A coordenadora confirma: "É uma manifestação popular, uma tradição da religiosidade que nós fazemos com muito amor e até levamos para escola e as crianças aprendem".

A Folia da Roça se apresenta por nove dias em fazendas da região de Formosa e, às vezes, são convidados para apresentar em outras cidades e até em outros Estados. O ritual é emocionante, as músicas são belíssimas e algumas rezas e cantos são em latim.

Dona Vera Couto é uma grande incentivadora dessa tradição e de outras também, até publicou Festa do Divino Espírito Santo "Folia da Roça".

Nesse livro, ela explica sobre a Folia do Divino da seguinte forma: "a bandeira é o símbolo do povo de Deus levando a fé e a religiosidade por toda a comunidade. Sua cor vermelha representa o sangue dos mártires e lembra o fogo. Por onde a bandeira passa são derramadas muitas bênçãos e beijar a bandeira é uma forma de devoção, respeito ao sagrado. A pessoa que carrega assume um compromisso com Jesus."

A pomba desenhada na bandeira significa a mansidão e o amor de Deus. As fitas são os dons do Espírito Santo. O fogo é um pedido a Deus de fogo do céu e a água é o Espírito Santo que mata a sede. As vestes brancas simbolizam a transfiguração de Cristo. A mão e dedo remetem a quando os israelitas esperavam Deus escrever nas tábuas da lei e a nuvem é a paz e sombra de Deus acompanhando seu povo. 

A Festa do Divino Espírito Santo é um ritual alegre e percorre fazendas e povoados, visitando as casas para levar mensagens de amor e fé. Os foliões vestem camisa e lenços vermelhos. A pé ou a cavalo, eles vão por toda a região entoando seus cantos sagrados e danças como a catira, a curraleira e outras.

A casa escolhida para ser o pouso é onde os foliões passam a noite e são recebidos com grande festa e mesa farta, onde todos podem comer à vontade. A coordenadora exige que as pessoas sigam as regras de conduta, que são: não fazer uso de bebidas alcoólicas, vestes adequadas, usar a divisa de folião (distintivo) e não carregar arma de fogo ou branca.

Na casa onde vai ser o pouso é colocado um cruzeiro enfeitado com flores, fitas e outros símbolos. A passagem do cruzeiro para a entrada da casa é ornamentada com doze ou quinze bananeiras fincadas, representando o número de apóstolos. Após a saudação do Cruzeiro, os foliões adentram a residência entoando o canto de chegada ou permissão.

Na entrada da casa, o folião que representa o Alferes e que também carrega a bandeira se dirige ao proprietário pedindo permissão para a Bandeira do Divino e para os foliões fazerem ali o pouso.

Momento de muita emoção é quando o dono da casa recebe a Bandeira e os Foliões ao ritmo da música:

"E sobre os punhos do nobre Alferes
Ela entrou em sua morada
Junto com seus filhos
E vem pedir uma pousada..."

Após as rezas e músicas, diante da mesa com farta alimentação, ao som de caixa (tambor) rabeca, viola, pandeiro, violão e reco-reco, eles cantam o Bendito da Mesa:

"Deus lhe pague pelo pão
Que nos deu com alegria
Deus te dê a recompensa
Para o Senhor e sua família..."                               

Momentos de descontração acontecem com a apresentação da catira ou curraleira. Às vezes as mulheres apresentam o Lundum ou Lundu. Os passos dos catireiros são guiados pelo som da viola e músicas, muitas vezes improvisadas pelos cantores. A curraleira é uma dança muito antiga e rústica. Essa forma de sapateado, de acordo Dona Vera Couto, apareceu na região no ciclo do gado, quando os tropeiros se reuniam para assar a carne do gado curraleiro e cantar.

   

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