Jorge Brito
Cultura Tradicional

Jorge Brito

Mestre de cultura e da sabedoria tradicional, Jorge Brito, carinhosamente chamado de “Seu Jorge”, transborda um saber puro, que aprendeu “com os antigos”, como ele mesmo diz, e observando a natureza. É figura fácil, simples, alegre e cheio de talentos que aprumou ao longo da vida. Escultor, poeta, mateiro, cantador, dançarino de catira, agricultor, pedreiro, benzedor e exímio contador de causos.

Mestre de cultura e da sabedoria tradicional, Jorge Brito, carinhosamente chamado de “Seu Jorge”, transborda um saber puro, que aprendeu “com os antigos”, como ele mesmo diz, e observando a natureza. É figura fácil, simples, alegre e cheio de talentos que aprumou ao longo da vida. Escultor, poeta, mateiro, cantador, dançarino de catira, agricultor, pedreiro, benzedor e exímio contador de causos. São muitos os talentos dessa figura carismática que vive em Visconde de Mauá, na Serra da Mantiqueira, berço das águas e de exuberante natureza.


Troncos, raízes e galhos retorcidos dão forma a esculturas policromadas de pássaros, peixes, cobras, lagartos, além de "seres de outro mundo". Bichos estranhos ou indefinidos que habitam o imaginário do artista. Jorge Brito nasceu em Visconde de Mauá, no dia 1º de abril de 1935, um sábado de Aleluia. Seu primeiro trabalho foi comprado em 1983, por Rubem Gershman. Em 1985, trabalhou como pedreiro na casa do artista plástico Roberto Magalhães, no Vale das Flores, região próxima a Visconde de Mauá. Começou, então, a usar tintas nos trabalhos, incentivado pelo artista. 

Jorge Brito é mestre do folclore, canta, dança, recita toca viola, conta causos, mateiro, benzedor, pedreiro, poeta, escultor. Ele sucinta em suas peças o modo de vida descrito a partir da chamada cultura caipira ou cultura do sitiante tradicional, caracterizada por famílias com relações de produção e consumo baseadas na reciprocidade, na ajuda, na instituição do mutirão, no uso de simbolismos da floresta e na realização de festas religiosas.

Em 2014, Seu Jorge Brito esteve pela primeira vez no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, quando ministrou oficinas e apresentou seu documentário Soltando os bichos. Voltou em 2018, no XVIII Encontro de Culturas, à Vila de São Jorge, com todo seu conhecimento e carisma. 

ENCONTRO DE CULTURAS

Texto escrito pela repórter do Encontro, Carolina Piai, durante o XIV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2014:

"Dona Ana era uma parteira das boas: mais de 500 bebes nasceram em seus braços. Era também uma benzedeira de primeira mão. Ela era demais, fora de sério. E era aquela pessoa simples, simplesinha, pouco conversava. Mas tinha uma sabedoria... Gostava de tomar pinga. Às vezes tava bem sapecada na pinga. Coitada! Deus que dê céu pra ela".  

Foi isso, pelo menos, que seu filho Jorge Brito me contou em uma noite fria, ao lado de um charmoso altar dedicado a São Jorge. Ali, ele mesmo já havia benzido mais de 60 pessoas naquele dia. Sentados lado a lado, em um banquinho de madeira, conversamos sobre a vida e seu jeito de vivê-la. Além de benzedor, esse homi alegre, como ele mesmo se define, é artista, cantor, agricultor e até poeta.  

Seu Jorge é, de fato, um homi alegre, de riso fácil. Com seu olhar, acalma qualquer um, dá esperança. É de Visconde de Mauá, divisa do Rio de Janeiro com Minas - por isso carrega o sotaque mineirim. Foi noivo doze vezes e casou com a última – é casado com ela até hoje. No ano que vem, dia 1º de abril, fará 80 anos. Gosta muito de fazer plantação. Quando entra na mata, abraça as árvi e coleta raízes. Com a madeira, cria esculturas de animais excêntricos e coloridos, obras de arte. Mas o que mais gosta de fazer é benzer, ofício que aprendeu com sua mãe.

"Às vezes chegava turma de 20 crianças lá em casa - tudo doente! -  e ela botava todas na cama dela, pegava o rosarinho dela assim e passava rezando, rezando. E as criança, tudo ruinzim. Quando era outro dia, chegava tudo bonzim".

Dona Ana, antes de morrer, ensinou a palavra da benzeção a Seu Jorge. Ele, porém, não rezava ninguém e só pegou o encargo depois que ela foi dessa para uma melhor. Segundo ela, aprendeu a rezar quando era criança. Agiu com bondade e, em troca, ganhou a graça de Nossa Senhora dos Anjos.

"Quero seguir o que ela fazia, porque é tão bom você curar as pessoas. Fazer um curativo nelas. Hoje benzi umas mulheres aqui de Goiânia. Uma encostou no meu ombro e chorou. Ela viu que eu era fazedor de milagres. Eu falei umas palavras pra ela, e ela falou: 'Bom, o senhor é uma pessoa que eu estava percurano'. Saiu chorando e eu fiquei chorando também".

"Por quê?", perguntei.

"De moção. De moção. É tão bom cê chorar de moção. É muito legal você conversar com a pessoa e saber que ela tá gostando de você, tá dentro do seu coração, como eu tô conversando com você. Cê tá dentro do meu coração. Eu tô conversando com você, mas você tá aqui dentro".

Seu Jorge olha no olho e acolhe. Fala com energia, como quem comemora a todo minuto por estar vivo. Sua energia vai além da fala. Acorda todo dia às cinco horas da manhã. Vez ou outra, vai plantar milho ou feijão. Em vários dias, vai fazer seus trabalhos de escultura. Para isso, adentra a Mata Atlântica, característica em sua região, e procura raízes ou quaisquer madeiras antigas. A partir da natureza, extrai uma arte sensível e inovadora.

"Eu não faço, só monto". O benzedor fala isso e ri com gosto. "Eu vou lá no mato, pego aquela raizinha torta. Quer dizer que eu não entortei a raiz. Trago ela, faço com um machado, faço com facão. São as minhas ferramentas. É um serviço rústico. A minha pintura também é diferente. É a própria natureza que deu aquele trabalho".

Neste ano, Jorge Brito já expôs na Galeria Cândido Portinari, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sua primeira exposição aconteceu há 20 anos. Desde então, suas esculturas fazem sucesso. O que mais engraça Seu Jorge, porém, é o carinho com que passa suas lindas mensagens para o mundo e sobre ele.

No final da nossa conversa, a noite já não estava mais tão fria. Suas palavras me aqueceram.

Deixou ainda um último ensinamento:

"Eu vou na mata, converso com as árvi, abraço uma árvi assim, fico fazendo a oração no pé de uma árvi, assim, abraçado. Vou ensinar pra você também, tá? Pra qualquer pedido ou oração, cê abraça uma árvi fazendo pensamento firme, positivo - porque pensamento cê não faz assim de brincadeira. Faz isso sozinho. Cê, a natureza e Deus. Cê faz um pedido ali e é valido".

Seu Jorge só diz palavras de benzeção. Quase tudo que diz é poesia.

   

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