Kleuton e Karen
Cultura Tradicional

Kleuton e Karen

Considerados pela crítica especializada como uma das melhores duplas caipiras do Brasil, Kleuton e Karen passeiam pelos clássicos de raiz e músicas autorais. Natural de Brasília (DF), a dupla genuinamente caipira usa o carisma para levar alegria aos amantes da música raiz. No início de 2011, lançaram seu primeiro CD "Genuinamente Caipira", com composições próprias e de grandes autores de renome do meio caipira.

Considerados pela crítica especializada como uma das melhores duplas caipiras do Brasil, Kleuton e Karen passeiam pelos clássicos de raiz e músicas autorais. Natural de Brasília (DF), a dupla genuinamente caipira usa o carisma para levar alegria aos amantes da música raiz.

Em uma reunião de amigos, Kleuton e Karen, que são casados, fizeram uma roda de viola por brincadeira - e quem assistiu gostou muito. Com tanta cobrança de formação da dupla, decidiram se inscrever em um festival regional para sentirem a aceitação do público. Foi um sucesso. Conquistaram o primeiro lugar, entre 600 duplas do Estado de Goiás. Desde então, a dupla não parou mais.

Em 2008, Kleuton e Karen participaram do Festival de Violeiros Amadores de Poxoréu (MT), no qual foram premiados. Abriram-se, a partir de então, portas do Brasil inteiro para eles. Todos os anos, eles participam desse mesmo festival, claro que não mais na categoria de amadores, pois consideram a festa uma parte importante de sua carreira, por tê-los revelado em seu palco.

A dupla contabiliza 22 títulos em festivais de nível nacional (GO, MT, MG, SP, DF, ES, AC, PR, RJ), entre eles o da Festa de Barretos (SP), em agosto de 2010; e o Prêmio Rozini da Excelência da Viola Caipira, como Dupla Revelação de 2010, promovido pelo IBVC (Instituto Brasileiro da Viola Caipira), em Belo Horizonte.

Em 2011, lançaram o primeiro CD de sua carreira, Genuinamente Caipira, mesmo título de uma música de sua autoria com parceria de Ismar Resende. Foi neste ano que se apresentaram no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros.



Kleuton e Karen mostram a harmonia rancheira, apresentando de músicas raízes clássicas a raízes românticas. Seguem no resgate e na defesa da bandeira da música raiz, com viola e violão. É um dos únicos casais, em seu estilo, no seguimento caipira do Brasil.

"A gente é o único casal caipira do Brasil. Hoje, nessa linha de pagode de viola, a música caipira tocada aí, o rasqueado, o cururu, toada ligeira, nosso disco tem o batuque que é um ritmo que quase música nenhuma toca. E é isso aí, a gente tem defendido a todo custo, com viola e violão, e como diz nós mesmo, com os dois queichos, que é duas vozes", explica Kleuton. 

Em 2013, lançaram seu segundo CD, A Viola Permanece, com o qual ganharam o troféu da 24ª edição do Prêmio da Música Brasileira, na categoria regional. No mesmo ano também foram contemplados com o Prêmio Rozini de Excelência da Viola Caipira, promovido pelo Instituto Brasileiro de Viola Caipira, na categoria melhor dupla.  

ENCONTRO DE CULTURAS

A dupla Kleuton e Karen se apresentou no XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e conversou com a Agência de Notícia Cavaleiro de Jorge sobre carreira, música caipira e também sobre a preservação dessa manifestação tradicional que chegou com os portugueses e criou raízes no território brasileiro.

Como foi o contato inicial de cada um com a música?

Kleuton: Na verdade, eu escutava Tião Carreiro desde menino. E meu pai teve muita amizade com o Zé Mulato e Cassiano desde criança, a gente é amigo deles desde criança. A gente é do meio deles, amigo da cozinha. Foi aí minha influência, a música caipira, a música de viola.

Karen: Bom, eu, antes de conhecer o Kleuton, já gostava de música, sempre gostei de música, mas não tinha nada profissional. A gente se conheceu  em uma roda de viola e ele tinha um parceiro, que faleceu. Então, eu assumi o lugar dele. A gente namorava naquela época e hoje somos casados e seguimos em frente, carregando essa bandeira da música caipira.

Quais as principais influências musicais de vocês?

Kleuton: Zé Mulato e Cassiano eu tenho como ídolos e tive um sonho realizado, quando eles produziram o nosso disco, que a gente lançou agora em fevereiro. Gravei duas músicas inéditas do Zé Mulato. Por várias revistas, como a Viola Caipira, fomos considerados  a melhor dupla de música caipira hoje no Brasil e somos apadrinhados por eles.

Qual a importância de se preservar e divulgar a música caipira pelo país?

Kleuton: Aí você foi num ponto bom. A importância pra nós da música, da cultura da viola caipira, deixa um pouco a desejar na mídia. Se você não pagar, se o “jabá” não entrar, não divulga nada. Mas a gente tem “garrado” nessa bandeira, carregando Brasil afora, e veja que a que as violas vieram com os portugueses nas caravelas, ou seja, tem quinhentos anos de viola, então nossa briga é árdua, porque hoje, se não for universitário, a mídia não roda, mas.... nós estamos aí trabalhando nos eventos culturais, a gente tá aí participando, tem sim o seu espaço, mas é bem menor.

E como combater esse problema do “jabá”?

Kleuton: Na verdade, a gente procura cada vez modernizar. E pra nós, modernizar é tocar e cantar melhor. Pra eles, bateria tampa tudo. Não tirando o mérito de um baterista, porque um baterista tem seu respeito, mas você vê que a turma universitária hoje, se não fabricar eles no estúdio, eles não fazem nada. Infelizmente é assim. Não queria falar, mas já falei.... (risos)

Karen: No caipira, a gente tem aí a vantagem de que se você tá tocando música caipira, ou você toca, ou você toca, não tem outro caminho, porque você tem que tocar e cantar, porque é só viola e violão no palco e é bem cultural mesmo, a gente vê os antecedentes aí, deriva do sertão, do sertanejo com sua violinha na varanda de casa.

Como que é ter esse título da melhor dupla caipira do país por algumas publicações?

Kleuton: A gente fica muito lisonjeado. A gente é o único casal caipira do Brasil. Hoje, nessa linha de pagode de viola, a música caipira tocada aí, o rasqueado, o cururu, toada ligeira, nosso disco tem o batuque que é um ritmo que quase música nenhuma toca. Então a gente colocou o título do nosso álbum..... Eu fiz questão, achei difícil de aprender esse título e falei “um dia isso vai ser título de álbum meu”. De pirraça eu coloquei o trem (risos). E é isso aí, a gente tem defendido a todo custo, com viola e violão e como diz nós mesmo, com os dois queichos, que é duas vozes, né?

E como é o contato com essas duplas mais tradicionais?

Karen: Com Zé Mulato e Cassiano a gente é de dentro de casa e hoje eles são considerados a melhor dupla caipira do Brasil. A gente chama eles de os melhores do mundo porque lá fora não tem música caipira né. Mas a gente tem também a influência do Zé Carreiro e Carreirinho, que Carreirinho foi quem fez o Tião Carreiro e Pardinho. É a dupla do século da música caipira, Zé Mulato e Cassiano, que é a melhor dupla caipira do Brasil.....

Kleuton: Mas tempos muita amizade com Cacique e Pajé, Rodrigo Matos e Praiano, então o pessoal do meio que já está aí  há 30, 50 anos de carreira, a gente tem amizade com todo mundo, já fizemos shows juntos. No decorrer a estrada a fora aí, a gente vai  encontrando com os amigos e vai se revendo pelos palcos da vida aí.

Karen: Pegando as dicas pra gente continuar o trabalho, seguindo na linha certa, sempre pra melhorar a música caipira.

Então podemos dizer que vocês estão alicerçados pelos melhores do mundo..

Kleuton: Ah, com certeza a gente fica agraciado por eles terem apadrinhado nossa carreira, produzir o nosso disco .... A gente tem ele como esteio. A gente vai na casa dele..... Ele abriu o livro de todas as modas inéditas dele e eu escolhi duas músicas pra estar no disco. Eu fiquei muito agraciado com isso. Acho que não tem dinheiro que pague isso.

Karen: Eles estão aí andando de mãos dadas com a gente, praticamente levando a gente no caminho deles porque futuramente as duplas jovens que vão substituí-los, porque ninguém fica pra semente.

Karen, você tocou em um ponto importante: como você observam as novas gerações da música caipira?

Karen: Olha, tem crescido bem. A gente fica muito feliz quando viaja, principalmente interior de São Paulo e sul de Minas Gerais. Lá a gente costuma brincar que as crianças já nascem com uma viola, que o primeiro presente é uma viola, porque lá tem muito violeiro jovem, muita criança tocando viola, que pega pelo gosto do pai, que o pai já ensina a gostar da música caipira desde berço. E a gente tá muito feliz. Até o espaço nas rádios, a quantidade de programas caipiras que tem nas rádios, principalmente no sul do Brasil, no Paraná, onde estivemos no mês passado. Interior de São Paulo é muito forte também, é uma cultura muito forte da viola caipira. E tá aí crescendo graças a Deus e a viola com força total. Infelizmente, quando Tião Carreiro morreu, parece que a viola morreu junto com ele, então nossa luta hoje é de levantar ela.....

Kleuton: Não é que o artista morreu e a viola foi com ele. A verdade é que a mídia, como eu citei anteriormente apoiava muito mais.  Faustão mesmo, se não entrar um jabá e grosso, não vai mesmo, só vai universitário. Mas tudo bem, onde tiver um espacinho a gente vai brigando, nós mostra a nossa cultura.

A religiosidade está sempre presente nas modas de viola. Como que é a relação de vocês com a fé?

Kleuton: Nós dois temos o privilégio de ser católico. Então, a religiosidade existe mesmo, tem muita música que fala de milagres e tudo mais, então a gente até canta palco isso. Inclusive em encerramento de show nosso a gente agradece a Nossa Senhora Aparecida e todos os presentes na platéia.... A gente é muito devoto de Nossa Senhora Aparecida, então a religiosidade existe sim.

Karen: Nosso disco mesmo são quinze faixas, treze fala em Deus. E já chegaram pra gente e falaram: “ué, agora vocês são dupla gospel?”. Uai, se a gente não falar em Deus..., Deus é que criou o universo, Deus que criou o sertão, se não fosse Deus também não existia viola, então a gente fala agradecendo, né? Até em composições nossas a gente fala em Deus.

Kleuton: A gente agradece pelo rancho, pelo pão de cada dia.... É como dizem, sem a mão Dele, a gente não escreve nada. Então em toda letra a gente procura falar do Criador.

Quais as características e diferença dos instrumentos de vocês?

Kleuton: A minha é a viola de dez corda, viola caipira legítima, afinada em “cebolão” que se você meter a unha nela tem que dar mí maior. Já o da Karen é o violão.

E um complementa o outro?

Kleuton: Ah, complementa.... Principalmente no nosso caso, do caipira, a (corda da) viola é aço e o violão é naylon, então o som fica muito gostoso, um começa um solo, o outro termina, faz umas caídas de acorde, então complementa, é um casamento.

Karen: Principalmente no pagode de viola, porque o pagode precisa de um cruzamento de tempo pra poder ser feito, que foi criado pelo Tião Carreiro também.

Kleuton: O pagode de viola trabalha num contra tempo. O violão faz um e a viola faz outro, sempre no contra tempo.

Karen: Se não tiver o violão não tem pagode, é igual arroz com feijão (risos)

Uma última pergunta...

Kleuton: Mas já? Não, arranja pelo menos mais umas duas (risos). Você tira da cachola mais umas duas (risos)

O casamento: ajuda ou atrapalha no palco?

Kleuton: No palco não; agora, pra compor.....

Karen: Na composição dá problema (risos)

Kleuton: Na composição, um cria uma coisa e o outro acha que tá pouco,  aí a gente sempre quer crescer a música e é aí que sempre tem uma briguinhas. Então, na composição, o casamento eu vou te contar, o trem desgasta.....

Karen: Mas a gente até esquece do casamento, a gente é parceiro, então tem briga mesmo, mas nada que atrapalhe. Eu escrevo, né? Aí eu já escrevo uma música pensando no ritmo, aí encomendo pra ele um arranjo e na hora que ele diz: “o arranjo tá pronto”, a gente senta junto e põe a melodia. Aí é a hora de mudar a métrica da música pra encaixar a melodia.... Aí nessas horas dá uma divergenciazinha, mas nada que atrapalhe. Aí é o resultado é os dois discos gravados e os elogios, então a gente tá muito feliz com esse disco.

*As respostas buscam sempre preservar o modo de falar dos entrevistados. 

   

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