A pesquisadora e artista Larissa Malty lançou o livro Alumeia, O Cerrado que a Velha Conta - Gestão Ambiental e Performance, sua dissertação de mestrado pela Universidade de Brasilia, no X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2010. Foi uma longa pesquisa de campo, na qual a autora incorpora a "Velha do Cerrado", uma personagem inspirada em rezadeiras, benzedeiras e curandeiras do Cerrado. Vestida de velha, Larissa saiu em busca do saber popular que guia a vida das comunidades de diferentes regiões do Brasil.
“No caminho das águas, uma árvore velha observa a velha senhora. Elas são do mesmo tamanho. Elas têm a mesma raiz.” (Trecho do livro, pág. 23)
As velhas senhoras que possuem a sabedoria da cura pelas plantas medicinais, as danças e as músicas e esse contato com a terra compuseram o universo de memória e investigação para incorporação da Velha do Cerrado. "Essa velha representa as muitas velhas que questionam nossos paradigmas e nossa forma de valoração dos recursos naturais. Eu não tinha a intenção de catalogar nada. Só queria entender a relação que essas mulheres possuem com a natureza", explicou Larissa em entrevista concedida ao Correio Braziliense.
“O tempo de contemplar garante a presença de quem observa. Assim, dá-se a simbiose entre o sujeito e o objeto. Eu via a formiga de fora e buscava a chuva de dentro. Via chuva de fora e buscava a chuva de dentro. Via a água de fora e sentia a água de dentro. E a partir desse movimento circular alguma parte em mim esboçava a necessidade de compreender a relação do ser humano com o seu meio através dos tempos.” (Trecho do livro, pág. 10)
A sustentabilidade é amplamente avaliada, desde a sustentabilidade cultural, levando à compreensão de que "sem sustentabilidade poética não há desenvolvimento humano sustentável".
Cora Coralina faz parte desse universo poético do Cerrado e de seus moradores, para o qual o livro é dedicado. Acompanha o livro e um CD que é parte integrante da coleção Sons do Cerrado.
O professor Othon Henry Leonardos faz o prefácio da obra e, já do início, resume em poucas palavras a sabedoria poética da obra de Larissa Malty: “É no conteúdo-poesia do CD que a velha canta e do livro que a velha conta, que está a grandeza da obra alumiada de Larissa Malty. Sobretudo, o livro narra a memória-futuro do mundo que precisamos imediatamente construir e recompor. É o paradigma da sustentabilidade biocultural da vida, escondido na ancestralidade nativa, que no cotidiano moderno esquecemos. Ela mostra que o reeducar precisa atingir a alma do ser e das coisas para deixarem de ser coisas".
Larissa Malty é analista ambiental pelo Ministério do Meio Ambiente, bacharel em Artes Cênicas e mestre em Desenvolvimento Sustentável, Política e Gestão Ambiental, pela Universidade de Brasília, tendo publicado pela LGE e EdUnB o livro Koika - Um Buraco no Céu, a partir de sua pesquisa referente à mitologia indígena Kayapó e Performance.
ENCONTRO ENTRE TERNOS DE CONGO E A VELHA DO CERRADO
Eram cinco horas da tarde quando a movimentação começou na Igreja da Vila de São Jorge. Era o Congo de Niquelândia, o primeiro a chegar ao local, que iniciava seus cantos. Começava ali uma sucessão de acontecimentos que deram início ao encerramento do X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Na igreja, começava uma reunião especial: quatro ternos de congo, de três estados brasileiros diferentes. Quatro culturas com suas semelhanças e afastamentos, porém com uma unanimidade: todas são movidas pela fé e devoção.
Com suas roupas brancas, saiote vermelho e penacho na cabeça, o Congo de Niquelândia entoava seus cantos de fé a Santa Efigênia dentro da igreja. A cor branca é para lembrar as origens africanas, tanto da dança quanto da santa. Porém, a influência indígena também está presente na tradição por meio dos penachos que os congadeiros usam na parte de trás da cabeça. Essas penas são uma homenagem aos índios Avá-Canoeiro, que viviam na região.
O momento de cantos era dividido com os onze integrantes do Congo de Nossa Senhora do Livramento, vindos do Mato Grosso, trajados com suas roupas azuis e vermelhas e empunhando seus instrumentos e espadas de madeira. A integração entre os membros dos dois ternos começou pelos instrumentos, que se diferenciavam uns dos outros seja pelo material, seja pelos tipos utilizados nas danças. O ritmo e o tema das cantorias foi outro aspecto que embalou a conversa entre os congadeiros.
Nesse momento de prece e também troca de experiências entre os ternos, a atriz Larissa Malty apareceu na igreja, caracterizada em sua personagem, a Velha do Cerrado. Durante sua passagem pela cerimônia protagonizada pelos quatro grupos de congadeiros, a atriz puxou um cântico que reuniu todos os convidados em uma só voz.
Enquanto os ternos de Niquelândia e Livramento voltavam a alternar sua cantoria na Igreja de São Jorge, o Vilão de Catalão atravessava a avenida principal da cidade com seu batuque ritmado e seus trajes nas cores laranja, preta e azul. Ao chegar à igreja, o grupo entrou e fez uma prece, deixando transparecer a sua religiosidade e seu respeito aos demais convidados.
O último grupo a chegar foi o Terno de Moçambique de Perdões, da Comunidade de Fagundes (MG). Homens de branco, com suas boinas e suas pantagongas amarradas nos joelhos, cantavam seu louvor a Nossa Senhora do Rosário e a São Benedito. A bandeira de Nossa Senhora vinha à frente do grupo, liderado pelo primeiro Capitão Júlio Antônio, com as cédulas de dinheiro como promessa para que a bênção de Deus caísse sobre a Vila de São Jorge.