Mamour Ba
Cultura Tradicional

Mamour Ba

Experiente músico, percussionista, compositor e multi-instrumentista, o senegalês Mamour Ba teve sua iniciação musical africana ao lado de artistas de renome e formação acadêmica na Escola de Arte de Dakar, Senegal.

Experiente músico, percussionista, compositor e multi-instrumentista, o senegalês Mamour Ba teve sua iniciação musical africana ao lado de artistas de renome e formação acadêmica na Escola de Arte de Dakar, no Senegal.

No CD, O poder do Ritmo, seu primeiro álbum, com a participação de seu filho, Cheikh Ba, mostra um trabalho totalmente autoral, com composições marcadas pela influência dos ritos e ritmos tradicionais do Senegal, com pitadas de jazz e improvisação. Na criação sobre os temas, ele utiliza elementos eletrônicos, mas sem deixar de lado a melodia de suas sutilezas. Destacam-se os instrumentos tradicionais mais variados, como balafon, djembê, thiuns, bongas, congas, bongô e sabar.


Formado pela Escola de Arte de Dacar, Mamour atuou no balé e na orquestra nacionais de seu país, quando teve a oportunidade de viajar por quase 20 países. Morou durante nove anos na França, período em que estudou composição na Universidade de Versailles e atuou como músico. Tocou com ícones do continente africano, como o cantor nigeriano Fela Kuti e o saxofonista camaronês Manu Dibango. Como bolsista da Unesco, havia decidido ir para o México, mas seus amigos da embaixada brasileira em Dacar o fizeram mudar de ideia. Assim, Belo Horizonte entrou na sua rota.

Há 30 anos radicado na capital mineira, Mamour Ba se tornou referência em cultura africana, ajudando a difundi-la em shows, espetáculos de dança e oficinas. O poder do ritmo é resultado de toda essa caminhada, incluindo a parte mineira, que começa no curso de composição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre seus colegas estavam os violonistas Fernando Araújo e Gilvan de Oliveira. Nessa época, teve a oportunidade de conhecer mestres como Hans-Joachim Koellreutter e César Guerra-Peixe.

A língua não foi um obstáculo tão grande, lembra ele, nascido em 1954. “Temos laços bem interessantes com o Brasil. O clima, a comida, as pessoas, a fonética. Foi fácil me adaptar e o fato de falar francês ajudou”.

PISTAS

Com oito faixas autorais, O poder do ritmo é baseado principalmente em ritmos senegaleses, com melodias de inspiração africana e, como define o percussionista, “harmonias universais”. Pitadas de pop, música eletrônica e improvisação (jazz) são as pistas que ele deixa para as futuras conexões que deseja desenvolver.

Mamour tocou praticamente todos os instrumentos, o que inclui boa variedade de percussões trazidas do Senegal, como balafon (espécie de marimba de madeira), djembê e sabar, este último um dos mais característicos do seu país. “Quando se toca o sabar por lá, todo mundo para e presta atenção. Está presente nos batizados e em manifestações diversas do país”, conta.


Além de introduzir novos sons de percussão africana no Brasil, o artista quis que o álbum ajudasse a mudar a concepção dos brasileiros sobre o ritmo. “As pessoas entendem o ritmo como acompanhamento, com um cantor à frente. No meu disco não é assim, há um diálogo com a percussão”, explica.

“Se as bandas de rock descobrissem o sabar, ele explodiria pelo mundo. Ele fala como a guitarra”, diz Mamour. Ele diz ter visto percussionistas de cantoras baianas, como Ivete Sangalo e Daniela Mercury, usando sabar, mas, na opinião dele, os colegas “ainda não sabem encaixá-lo na música”.

Há exemplos do potencial da percussão africana por todo o disco e um dos mais interessantes é expresso por meio dos bongas, conjunto de seis tambores, que não substitui, mas assume de forma discreta (e curiosa) o papel do baixo. As músicas Mansana-Cissé, Thiossen e Elegance trazem bons exemplos.

A propósito, esta última faixa tem como base o ritmo conhecido na África como gumbé, e chama a atenção pela similaridade com a batida brasileira do maculelê (que influencia o funk carioca, por sua vez). Mamour diz que fez de propósito: “Para aproximar e mostrar que muito do que se toca aqui é tocado lá também. A forma é a mesma”.

CONEXÃO AFRICAN BEAT

O Grupo Conexão African Beat começou sua trajetória por uma necessidade de resgatar e valorizar os ritmos africanos. Ritmos oriundos dos clássicos do século XII como Dejairandinkê, que tem a linguagem que deu origem ao blues, Laobe que é um clássico africano e Thiossan, com fragmentos do que gerou o rock.


Liderado por Mamour Ba, o Conexão African Beat tem um caráter internacional. Utiliza instrumentos de percussão afinados melódica e harmonicamente, que permitem fazer uma fusão com o pop, jazz, clássico, eletrônico e raiz. Cria arranjos sofisticados, resultando em uma música pulsante e cheia de improvisações.

ENCONTRO DE CULTURAS

Mamour Ba possui mestrado em música pela Universidade de Versailles na França e seu trabalho é conhecido em todo o mundo. Criou uma escola de aprendizagem musical que resgata os ritmos tribais formando músicos, artistas e instrumentistas em técnicas de tambor, djembê, congas, tambores de base, canto, violão, interpretação, dança e outras.

Seu filho Cheikh Ba é solista e tecladista do Conexão African Beat, grupo idealizado por Mamour Ba.

Mamour Ba participou do IX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2009.

Durante a oficina de percussão que ministrou, enfatizou bem que o primeiro sentido da aprendizagem é a paciência: "Paciência não se adquire com alguém falando, ela é trabalhada. É necessário trabalhar com as máscaras, retirando uma a uma..."

Cerca de 70 pessoas compareceram a Cavaleiro de Jorge para assistir à oficina de Mamour Ba. "Falar é importante, tocar é depois, para tocar tem que aprender a ouvir primeiro", foi assim que o senegalês começou a sua fala. Ele explicou que a música africana vem de uma sabedoria milenar e seria impossível ensinar isso em um dia de oficina. "A percussão é uma coisa sagrada e muito exigente. Não pode tocar sofrendo. Não pode machucar a mão", filosofou.

Mamour Ba falou que os instrumentos vieram de uma hierarquia familiar e, por isso, é preciso respeitá-los. "Você tem que pedir licença. Precisa ter ritmo. A percussão e a música estão na fé", continuou. Após esses ensinamentos iniciais, os percussionistas se apresentaram mostrando as diferenças entre alguns ritmos africanos. Depois disso, Mamour falou um pouco sobre o seu próprio aprendizado. Ele cursou Medicina até o quarto período e já estudava música na faculdade, que tinha o estudo da arte como requisito obrigatório em sua grade de ensino.

O senegalês já fez intercâmbio em mais de 18 países e aprendeu com mestres que lhe ensinaram a tocar com propriedade, a ser autêntico em vez de tocar as músicas do cotidiano. Os ensinamentos de Mamour Ba começam pela compreensão dos ruídos do corpo, "a percussão começa na boca". Segundo ele, entender afinação e entonação por meio da voz antes de partir para o instrumento é fundamental. "É importante entender a linguagem do instrumento", completou.

Segundo ele, na África a percussão leva até oito anos para que se comece a batucar um tambor. Critica pessoas que assistem uma ou duas aulas e dizem ser percussionistas. Além da necessidade de um bom professor, existe o tempo para se trabalhar a paciência e o ritmo. "O aluno precisa aprender a tocar sem se cansar, respeitar o caminho do ritmo, o preparo de escuta...".

O mestre deixa bem claro que o tambor é um instrumento difícil de se tocar, pois ele necessita do equilíbrio entre uma mão e outra. "O tambor é um instrumento nobre, tem que se tocar elegantemente, é um instrumento que passa o código e só os calos das mãos podem dizer quem é bom percussionista!"

Para Mamour Ba, o segredo do bom professor é passar muito tempo com o aluno, dez ou quinze anos ou mais. E ainda comerem juntos, testando a paciência e aprendendo a dialogar com os tambores.

A disciplina é fundamental para a aprendizagem da percussão, sem ela é com se jogar energia fora, diz ele. O aluno aprende desde a manutenção, a forma de carregar e ainda a conversar sozinho com o instrumento. "O mais difícil é fazer o aluno ficar sentado e ouvir...", complementa, sorrindo. "Tem que soar bem no ouvido. Se o som não estiver limpo, o ritmo fica sem sentido e desafinado. Aí não leva a lugar nenhum".

Mamour Ba e seu filho, com vivência rítmica e improvisação, balançaram o grande público no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. No palco, o djembê chama e, numa cumplicidade sem igual, os tambores de Cheikh Ba respondem. Pai e filho se harmonizam: um olhar ou um sorriso e o ritmo se estende por caminhos variados.

Ao final da oficina, Mamour Ba se mostrou satisfeito com os resultados alcançados. "Eles acharam que seria uma oficina de percussão, mas eu falei da expressão rítmica, da expressão vocal, das palmas. Essa oficina é um passaporte para vida inteira. As pessoas precisam aprender a se respeitar, a respeitar o corpo".  O percussionista ainda falou sobre a experiência de participar de um evento como o Encontro de Culturas: "vai sempre somando, cada vez que eu viajo é um novo conhecimento, uma nova biblioteca que eu vou construindo".

Ao som dos tambores, das improvisações de Mamour Ba em gritos tribais fortes e também suaves, o coração da África  ressoou forte na noite de São Jorge.

O SHOW NO ENCONTRO DE CULTURAS

Dércio Marques já cantava a última música de sua apresentação e a expectativa pelo próximo show já tomava conta das pessoas. Ao som de sua viola, Dércio chama ao palco o senegalês Mamour Ba, que entrou acompanhado de seu filho Cheikh e de Gabriel, integrante do grupo Conexão African Beat, idealizado por Mamour.

A plateia, que estava sentada durante o belo show de Dércio, se levantou. O som dos thiuns e do balafon (instrumentos de percussão) já davam uma amostra do que seria o show. Mamour ficava por conta do djembe e da voz, que sabe usar de uma forma espetacular para dar ritmo às suas músicas.

A batida dos tambores aproximava às pessoas junto ao palco, que se rendiam ao som de origem africana. Mamour aproveita para fazer o primeiro contato com a plateia, mostrando que mesmo com um português cheio de sotaque consegue conquistar o público e fazer com que todos participem da apresentação. "O público daqui é muito quente, envolvente. Para mim, foi uma experiência inesquecível", conta Mamour.

"Vamos fazer música juntos", anunciou. E, assim, todos os sons feitos por Mamour eram repetidos em um grande coro. As palmas completaram o show. Em seguida, foi a vez de uma canção no dialeto africano de Mamour, chamada M'beugueil, que em português significa Como Amar. A música, que fala sobre como nasce o amor e de que forma um homem pode amar uma mulher infinitamente, foi ouvida por todos, atentamente.

Sem usar uma palavra, Mamour usou a voz para cantar a melodia de Asa Branca, mostrando a proximidade entre as culturas africanas e brasileira. Essa foi uma pequena mostra da proposta de trabalho do grupo Conexão African Beat. "Quando as raízes dos dois países se somam, quem sai ganhando é o povo, porque as heranças ficam para sempre", explica Mamour.

Durante a apresentação, o tempo parecia ter passado rápido demais. O envolvimento era tão grande que as pessoas nem se deram conta que o show chegava ao fim. Os pedidos por mais músicas foram ouvidos e Mamour colocou o filho para tocar o djembe e mostrou ao público como ele aprendeu a tocar o instrumento.

Mamour fazia com a boca os sons que queria ouvir do djembe. A brincadeira começou com sequências curtas, que eram ouvidas por Cheikh e depois tocadas. O público assistia atentamente e se impressionava com o jovem de 17 anos. As sequências ficavam cada vez maiores, até que Mamour fez uma com mais de um minuto de duração. Cheikh não hesitou e repetiu o novo desafio deixando o público perplexo.

Os gritos e as palmas deixavam o pai ainda mais orgulhoso. "É muito emocionante viver isso. Foi um presente de Deus, porque ele é um companheiro que tenho", conta Mamour com um sorriso no rosto. Quando perguntei sobre como eles ensaiam essa parte do show, ele respondeu, de forma simples, que a única coisa que seu filho faz é ouvi-lo. "O ser humano precisa aprender a escutar", completou.

*Com texto de Gabriela Marques

   

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