Mariana Carrizo é nascida entre os Valles Calchaquies, no estado de Salta, noroeste da Argentina. Cresceu nessa região de grande concentração indígena, onde as diferenças sociais e os preconceitos com o indígena e a mulher são marcantes.
Sua arte vem de cantigas ancestrais dos pastores de cabra, que consagram de forma festiva a semeadura, a colheita e as relações humanas na cultura andina: a comunhão com o universo.
Mariana também desenvolve projetos junto à comunidade de sua região para dar visibilidade às questões indígenas, da mulher e da destruição da natureza, por meio de seus versos e voz. Além de patrocinar filmes, documentários e livros, ela participa ativamente do “Encontro de Copleros”, em Salta.
Uma voz firme entoando um lamento que canta as dores e as belezas da cultura andina é interrompida somente pelo som de um tambor indígena, ou caixa. Juntos, voz e instrumento vão desenhando as coplas argentinas, composições poéticas que misturam a copla espanhola de estirpe literária aos cantos comunitários indígenas das regiões andinas. Antigamente as coplas eram cantadas apenas nas línguas indígenas, principalmente quechua, mas foram se popularizando na língua espanhola. Hoje, marcam presença nos festivais dos povos nativos da Argentina.
Foi justamente num desses festivais, o Festival de Folclore de Cosquín, onde ganhou o importante prêmio "Consagração", que Mariana Carrizo saiu para o mundo, levando em seu canto uma mensagem em forma de ritual sagrado.
Seus trabalhos mais conhecidos são Bangualas y Algo Más, Livre y Dueña e Coplas de Sangre.
ENCONTRO DE CULTURAS
Nossa colaboradora Sinvaline Pinheiro conversou com Mariana Carrizo durante sua estadia na Vila de São Jorge, para se apresentar no XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2011. Segue o relato:
Oriunda de uma família classe média baixa, Mariana sofreu muito a discriminação e até mesmo a violência dentro e fora do lar. Entre três e quatro anos de idade, ajudava a pastorear cabras e, ouvindo a avó e outras mulheres, aprendeu a cantar. Às vezes ouvia o pai alcoolizado e solitário cantando e, assim, nascia o espírito musical. Sua mãe respeitava a vocação de cantora, mas não opinava, porque na tradição familiar a mulher não tinha voz ativa.
O canto íntimo de Mariana buscava a liberdade e o resgate do folclore, assim ela cantava Copla. O instrumento tradicional foi a caixa e o tambor indígena. As letras surgiam de acordo com o momento e ainda criança ficou conhecida como coplera.
Foi discriminada e seu canto sofreu tanto preconceito que tentaram silenciá-la, ignorando suas músicas. Os próprios indígenas sentiam vergonha em dizer que cantavam a Copla, sobretudo os jovens. Assim ela se tornou a pequenina coplera solitária.
Segundo Mariana isso acontecia, porque os indígenas eram e ainda são marginalizados no noroeste da Argentina, onde não se respeita a cultura e as escolas não possuem educadores com preparo suficiente para essas questões. A influência do catolicismo também é muito forte. Ela sofreu na pele essa influência quando foi mãe solteira aos 16 anos de idade. A família conservadora a discriminou e o sofrimento foi amenizado com a música.
Mariana insistiu cantando e aos poucos foi para os palcos, preenchendo espaços nos intervalos dos shows, simplesmente para tapar buraco de outros artistas. Mas não desistiu. Cantando, tentou acabar com as diferenças sociais. Foram décadas de insistência e cada vez mais ela se sentia liberta. A música foi o caminho de sua liberdade. Ela assegura que cantando copla marcou o momento de mudança quanto às questões indígenas, ao preconceito contra a mulher e ao ritmo.
Em 2004, apresentou no Festival de Folclore de Cosquín e recebeu o premio Consagração, um dos maiores atribuídos a cantores argentinos. Daí em diante, o sucesso veio rápido e ela percorreu vários países, levando no canto a mensagem em forma de ritual. Comenta: "Meu grande momento foi depois da premiação do Festival de Cosquín, tudo ficou mais fácil. Recebi convites para shows em vários países".
Considera sua vida um exemplo para a comunidade e que sua música foi a ponte que contribuiu para quebrar o preconceito com a mulher, os indígenas e a copla. Modestamente afirma: "O Festival de Cosquín chamou a atenção não diretamente a minha pessoa, mas para as questões indígenas". Continua: "O canto e o instrumento é algo muito Íntimo, um ritual sagrado. Às vezes canto sem a caixa, só com o silêncio que corresponde às batidas da caixa. O silêncio também é uma forma de transmitir a mensagem musical".
Mariana exige, na contratação de shows, que o palco seja só dela. Nada pode interferir no momento que ela considera de intimidade com a música e o público. Ela diz: "Cantar foi como sentir a liberdade, o canto me fazia voar para a espiritualidade. Quanto cantava era o momento com minha intimidade. O golpe da caixa é como uma batida do coração, transmitindo o que as palavras não podem expressar...
Pergunto como a família encara o sucesso e, tímida, ela responde: "Confesso que ainda hoje não tive coragem de cantar para meus pais, eles não tem dimensão do que se tornou a música na minha vida".
Ela não recrimina nunca os pais. Culpa todo o modelo da geração passada, que só sabia viver de acordo com os costumes rígidos dos antepassados. Considera que eles também foram vitimas desse processo.