O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversas culturas do mundo. Com arranjos inovadores e criativos, apresenta uma música vibrante, pérolas do repertório mundial que foram transmitidas de geração em geração pela tradição oral. O repertório do grupo é formado por músicas de diversas tradições mediterrâneas, balcânicas, africanas, japonesas, chinesas, resultado de extensa pesquisa realizada pela arranjadora e diretora musical do grupo, Magda Pucci. São temas ancestrais que possibilitam a pesquisa de sonoridades múltiplas, revelando as características étnicas locais e buscando sempre estabelecer interrelações com a música brasileira.
No XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, o Mawaca apresentou um show em comemoração aos 22 anos do grupo, com as músicas que marcaram sua carreira e que fazem parte dos CDs Pra todo canto, Rupestres Sonoros e Inquilinos do Mundo, que recria formas ancestrais e temas sonoros de diversas partes do mundo, com algumas conexões com a música brasileira.
MAWACA NO ENCONTRO DE CULTURAS
Mostrar às pessoas o universo musical para além dos estereótipos é uma das propostas do Mawaca. Na tarde do dia 23 de julho de 2017, de forma bastante interativa, todos os 40 participantes cantaram e dançaram na oficina “Músicas do Mundo”, no segundo dia do XVII Encontro de Culturas. Estimulados e envolvidos com palmas e cantorias, os participantes tiveram a oportunidade de conhecer a história de culturas e músicas da África, Ásia Leste Europeu e povos indígenas.
Ao todo são sete cantoras e seis instrumentalistas baseados em São Paulo, que recriam sonoridades de uma imensa diversidade musical em mais de 20 línguas. Produziram sete álbuns e três DVDs que retratam esse pluralismo artístico, levando em consideração questões ligadas à tolerância religiosa, diferenças raciais e étnicas dos povos, além de temáticas femininas.
De acordo com a diretora musical do grupo, Magda Pucci, o projeto começou com uma pesquisa sua e foi preciso expandir os limites estéticos do que foi pensado originalmente. “Comecei a ouvir outras sonoridades e formei um pequeno grupo de cantoras, explorando vocais principalmente femininos. Tudo focado basicamente em músicas tradicionais populares de vários lugares (Leste europeu, países africanos, Ásia). Assim, algumas conexões com a música brasileira foram se criando. Fomos fazendo o cruzamento de sonoridades”, explicou.
Durante a oficina, os participantes tiveram oportunidade de conhecer uma música tradicional de saudação dos hebraicos. Dançando em roda, de mãos dadas, ao som do acordeão, todos cantaram e dançaram o Zemer Atik, música criada com pandeiros pelas pessoas nas caravanas dos desertos no século XIII. Durante a diáspora judaica, eles cantavam para lembrar as antigas tradições.
Na dinâmica de grupo, as pessoas deitaram no galpão de olhos fechados para escutar seis músicas de países africanos. A partir das sonoridades foram provocados a falar palavras associadas ao ritmo que estavam escutando. O Mawaca busca essas histórias acumuladas há séculos por gerações por meio da tradição oral. A África, segundo os integrantes do grupo, tem mais de 600 etnias e 800 línguas.
O grupo usa gravações, realiza muitas pesquisas via internet e viaja para alguns países para aperfeiçoar os estudos musicais. “Há 22 anos a gente pedia para trazer discos, fitas cassete e pirateava muita coisa. Não tínhamos tantos recursos naquela época. Dali extraímos muitos elementos, buscando os instrumentos que eles usavam com algumas características dessa cultura. Não era para reproduzir igual, e sim se inspirar e criar em cima. A gente acha um tema e pesquisa, ou conhece uma música e a partir dela vai procurar”, explicou Magda.
A OFICINA
Em aproximadamente duas horas de oficina, todos já estavam em sintonia nas danças e cantos. Na apresentação final, os homens e mulheres cantaram ao mesmo tempo ritmos diferentes, batendo palmas ao som do acordeão. Segundo Fernanda Gomes, estudante de marketing que veio do Rio de Janeiro para participar do evento, a oficina conseguiu deixar as pessoas à vontade em poucos minutos. “Todos ficaram rapidamente conectados, isso ajudou nas dinâmicas, funcionou muito rápido. Esperava músicas diferentes, mas foi ainda mais interessante do que pensava. Os significados, inclusive, de línguas que nem existem mais. A interação e movimento entre o grupo cantando foi muito legal”, disse.
Por conta da hegemonia das músicas comerciais anglo-americanas, as pessoas acabam não tendo acesso a essa diversidade rítmica mundial. Para o professor e músico Gabriel Levy, a globalização trouxe coisas muito boas com o deslocamento de pessoas pelo mundo e o acesso virtual às informações, mas, por outro lado, há imperialismo cultural da indústria musical, que torna invisível o que não a interessa economicamente.
“Estão criando uma espécie de monocultura no mundo da música. Existe muita diversidade, mas ela não chega às pessoas por causa desse anteparo da música comercial norte-americana. Se as pessoas ouvirem mais coisas vão gostar, por isso a nossa proposta é mostrar muita coisa legal de instrumentistas geniais do mundo todo. A gente abrir essa audição é como tirar uma nuvem da cabeça que impede de ver tudo o que tem no planeta. Como dizia o Vinícius de Moraes, ‘a vida é a arte do encontro’. Então, a gente encontrar as culturas musicais do mundo é um ideal que temos”, destacou Gabriel.