Mestra Dandinha
Personagem

Mestra Dandinha

Maria Cândida dos Santos, apelidada carinhosamente de Dandinha, nasceu em Pojuca, região metropolitana de Salvador, no Estado da Bahia. Reside em Pitanga há mais de 30 anos e é uma das pioneiras do Samba de Viola em Simões Filho.

Mestre da Cultura é como são conhecidas as pessoas cuja vivência é exemplo de saberes acumulados para serem transmitidos às futuras gerações. Uma professora do mundo é como se pode chamar Dona Dandinha, uma sambista de 82 anos de idade. Ela se apresentou no X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2010. Este texto é de autoria da colaboradora Sinvaline Pinheiro.

Maria Cândida dos Santos, apelidada carinhosamente de Dandinha, nasceu em Pojuca, região metropolitana de Salvador, no Estado da Bahia. Reside em Pitanga há mais de 30 anos (na época) e foi uma das pioneiras do Samba de Viola em Simões Filho.

Foi criada na fazenda, na lida dura do trabalho na roça, onde os pais plantavam arroz, milho e mandioca. Ela e seus 10 irmãos iam todos os dias para a roça capinar e fazer outros serviços pesados. Antes do dia clarear já pulavam da cama prontos para a empreitada. Comiam cuscuz, aipim cozido ou feijão, o que tivesse, e corriam para a roça.

Ela lembra, feliz: "Foi um tempo muito filiz! A gente trabaiava cantano e brincano! As mão calejada, mas filiz! Nóis levava um balaio cheio de comida, que era farinha e carne seca, uma delícia!"

Segundo ela, a mãe acendia um fogo para esquentar água e depois despejava em um prato cheio de farinha de mandioca, formando um pirão. Todos comiam acompanhado de carne seca.

O trabalho cansava, mas eles não enjoavam. Todos cantavam e ali se socializavam nas brincadeiras no pequeno intervalo do almoço. Ela relata: "Era uma hora muito boa, nóis corria feliz para perto do balaio para ver quem comia primeiro!"

Já quase escurecendo, voltavam para casa e, depois de um banho no rio e de barriga cheia, iam brincar no terreiro, como ela conta: "Nas brincadeiras juntava muita criança, os brinquedos eram boca-de-forno, veado, melancia e outro que nóis inventava...". Continua: "Boca de forno é brincadeira de iscondê; veado nóis fazia uma roda, aquele bando de minino e um empurra o do meio dizeno: sai veado, sai! O mais duro segura muito tempo e os outro vai empurrano ele até que sai e outro minino entra. Melancia é uma brincadeira que as criança deita tudo no chão de barriga pra cima e um vai batendo nas barrigas e oiando se tá fofa, verde ou madura. Se fizer baruio de madura,. grita: vamos cumê, tá madura! Aí a mininada tudo corre atrás até pegar..."

Dandinha sorri alegre lembrando da infância, do modo de viver antigamente, que ela considera até estranho do modo de vida atual, principalmente no respeito dos filhos com os pais. "No meu tempo os mais veio juntavam a noite conversano na varanda da casa, um bando de gente junto e minino ninhum tava doido de entra lá ou pelo meno passá no meio, ai, ai! A gente tinha respeito e se disobedecesse apanha de cipó de corda".

Dandinha aprendeu com a avó a arte da benzeção, e assim ela conta: "A gente não tinha iscola, só trabaio, ninguém sabia lê na minha casa, a mais sabida era a vó Alexandrina, que era benzedeira e parteira. Oiano ela benzê eu aprendi, hoje benzo as pessoas dos males".

Jeitinho delicado e bem pequenina, com aproximadamente 1,25 m de altura e muita energia, sempre enfeitada com vestes e colares de sambista, ela fala com orgulho como sempre foi peralta: "Minha mãe me levava pras reza e lá eu via muitos rapais bunito. Então, com 12 anos de idade, eu peguei com chamego com um e embarriguei. Minha barriga foi cresceno, o seio inchano e uma prima minha me avisou que eu tava grávida. O jeito foi conta pra meu pai e ai eu fui morar com o rapais. Fiquei com ele quatro anos e vortei pra casa de meus pais com o filho. Ai dispois casei com Matias e tive mais 4 filhos e vivemos juntos até ele morrer. Com ele aprendi a sambar o samba de viola e muitas outras danças e rezas".

Dandinha vive na comunidade de Pitanga, município de Simões Filho, orgulhosa de ser viúva do Mestre Matias, com quem aprendeu a sambar de verdade. Ela tem como missão continuar ensinando a todos a arte do samba e as rezas. O samba segundo ela, é sua vida: "Não consigo viver sem sambar, é só ouvir o batuque e já saio sambando!"

Sambando altiva no palco do X Encontro de Culturas, jogando folhas, distribuindo simpatia e sem perder o ritmo, ela coloca um colar de contas em alguém e a plateia aplaude emocionada a mestra do Samba de Viola do Recôncavo Baiano.

   

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