Manoel Pio Sales, conhecido como Mestre Sabú, nasceu na cidade de Goiás, em 1940, e morreu em 2017, aos 76 anos.
Ainda criança, viajou pela primeira vez à Bahia e teve seu primeiro contato com a capoeira. "Passei pelo Pastinha quase dois anos, depois com mestre Noronha, que era muito amigo dele, e aí foi que eu me formei já com o Caiçara". Para Mestre Sabú, é na Capoeira Angola de Mestre Caiçara que se encontra a raiz da Capoeira Angola que ensina. Falava sobre Mestre Caiçara com uma pessoa de ética, postura, perseverança, que tem a segurança do que está praticando e ensinando.
Embora gostasse da capoeira, Mestre Sabú foi em busca de outras fontes e experiências por sua passagem pela Bahia. Teve oportunidade de aprender Vale Tudo e Luta Livre com o Mestre Valdemar Santana, prática que mais tarde lhe daria subsídios financeiros para trabalhar com a capoeira Angola em Goiás.
Quando, em 1958/1959, Sabú veio para Goiânia, a capoeira ainda não era aceita em grande parte pela população, pois acreditava se tratar de terreiro de macumba: "Eu mantive a capoeira viva até ter a aceitação da sociedade, pois não tinha aceitação, infelizmente".
Em 1960, o Mestre inicia suas atividades desportivas em Goiânia, com o Vale Tudo e a Luta Livre. Com elas, sustentou sua família durante anos e, ao mesmo tempo, manteve paralelamente o ensino da capoeira.
Na época, além de ensinar a capoeira em seu Terreiro de Capoeira Angola na Vila Redenção, ele também fabricava e ensinava a produção de instrumentos, como atabaque, agogô, afoxé, nazal, reco-reco, maracá, tamborim, surdo, cuíca, tumbadôra, timbau, berimbau, ganzá.
Mestre Sabú foi um grande autodidata. Ele contava como aprendeu a fazer os instrumentos sem ninguém ensiná-lo: "Aprendi por necessidade. Eu comprava os instrumentos e os pesquisava. Por exemplo, eu comprei o agogô e estudava a grossura da chapa, fazia e não ficava bom. Aí fazia de novo com outra chapa até ficar igual ao que eu havia comprado". Todos os domingos ia às feiras para se apresentar com o grupo de capoeira e aproveitava para vender seus instrumentos.
Diante dos preconceitos, Mestre Sabú resolve ressignificar a capoeira, passando a estudar suas raízes e história. Faz algumas adaptações e, nestas bases, procura efetivar as implementações do que ele passou a denominar Capoeira Arte.
"Nós temos a capoeira específica de Goiás. Que eu criei pra Goiás. Uma Capoeira Arte, porque a sociedade não aceitava mais um jogo da zebra, esse tipo de jogo pesado. Então nós criamos uma capoeira típica do estado de Goiás, com algumas modificações de fugas pra dar mais agilidade, dar mais arte na capoeira. Foi um trabalho ardoroso, estudo de muito e muitos anos", costumava contar.
ENCONTRO DE CULTURAS
*texto do repórter do Encontro em 2009, Vitor Santana
O ritmo era dado pelo berimbau, seguido pelo pandeiro e atabaque. Quatro mestres puxavam uma roda com cerca de 30 capoeiristas. Experiência e vontade de aprender se misturavam e se completavam nas manhãs de oficinas do II Encontro de Capoeira Angola, que aconteceu durante o IX Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2009. Homens e mulheres; novatos, experientes e espectadores se renderam à magia dessa arte que por muito tempo sofreu grande preconceito. Diferente da capoeira regional, a capoeira angola é mais lenta, com golpes mais baixos, próximos ao solo e cheios de malícia.
Os quatro mestres presentes, Mestre Cobra Mansa, Pelé da Bomba, Sabú e Vermelho se revezaram nos instrumentos e nos cantos. As músicas, com temas gerais, temas da vida, eram muitas vezes feitas na hora, de improviso dependendo de acontecimentos da roda. Mestre Pelé da Bomba puxou músicas a partir de causos contados por ele.
Mestre Sabú, vestido impecavelmente com um terno branco, camisa vermelha, gravata, chapéu e um broche de rosa na lapela foi um dos mestres participantes do encontro. Afirma que não começou direto na capoeira, pois ela era marginalizada devido ao ritmo que lembra muito os rituais do candomblé.
Pela primeira vez no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, esse senhor que no auge de seus 70 anos ainda esbanja vitalidade, se apresentando nos sambas de roda, afirma que encontros como esses são de extrema importância. "A capoeira é uma riqueza nossa, e sendo assim, todos devem unir forças para criar uma resistência, manter a capoeira sempre viva", reforça.
Nos três dias de oficinas e apresentações, o berimbau podia ser ouvido a distância, acompanhado pelas vozes dos que ali estavam presentes. Mestre Cobra Mansa jogou capoeira com alguns capoeiristas da roda, mostrando um pouco de suas habilidades. Esse mestre da Bahia que está sempre com um sorriso no rosto e muita malícia em sua ginga dedica-se à capoeira desde os quatorze anos "A capoeira me deu tudo que eu tenho, então eu só tenho que agradecer, sorrir e deixar a capoeira me levar", conta. Esse mestre de 49 anos faz coisas na roda que muitos jovens de 20 anos nem pensam em conseguir. "Toda a energia vem das próprias pessoas. Quando eu entro na roda, existe uma energia muito grande nas pessoas, no canto, no ritmo, no berimbau".
Samba de Roda
Para finalizar o II Encontro de Capoeira Angola, Mestre Pelé da Bomba puxou, na noite de ontem, um samba de roda com a presença de convidados como Mestre Vermelho e Mestre Sabú e o percussionista Abu Bakr. O ritmo movimentou a todos que estavam presentes. Mesmo aqueles que não sabiam dançar arriscaram alguns passos. Alegre com a receptividade do público, Mestre Pelé da Bomba disse em tom de brincadeira: "eu não imaginava que vocês sambassem tanto. Eu achei que só eu sambava assim".