Mestre Solano - o Rei da guitarrada
Cultura Tradicional

Mestre Solano - o Rei da guitarrada

Mestre Solano percorre o País difundindo a música paraense, quebrando barreiras geográficas e culturais e ensinando que a música de qualidade e a experiência de um mestre são eternos.

Desde criança, José Félix Solano Melo recebeu fortes influências caribenhas que chegavam no seu radinho de pilhas. Tornou-se músico por influência do pai e, em 1953, estreou com a banda Jazz Tupi, na qual tocou por 10 anos. Em 1963, foi para Belém, entrando no Corpo de Bombeiros da cidade e tornando-se músico da corporação.

Em abril de 2014 lançou seu 17º álbum, Som da Amazônia, patrocinado pelo Projeto Natura Musical. O trabalho é uma verdadeira viagem por sua carreira, passando por diversos gêneros musicais da região amazônica. Conta com a produção da cantora Aíla e participações especiais, como Manoel Cordeiro e Sabastião Tapajós.


Mestre Solano já teve grandes sucessos nos topos das paradas musicais. O mais famoso é Ela é americana, música que ele gravou nos anos 1980 com o Solano e seu Conjunto, mas já foi gravada por vários artistas de peso, como Alípio Martins e Arnaldo Antunes.

O seu toque de guitarra é “de raiz”. Simples, harmonioso e vibrante, cheio de improvisos que somente um mestre como ele é capaz de arriscar. Hoje, Mestre Solano percorre o País difundindo a música paraense, quebrando barreiras geográficas e culturais e ensinando que a música de qualidade e a experiência de um mestre são eternos. 


ENCONTRO DE CULTURAS

Mestre Solano esteve no palco do XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, na noite de 27 de julho de 2017, na Vila de São Jorge, junto a Silvan Galvão, que é referência no carimbó amazônico. Antes do show conversamos com ele sobre a criação da guitarrada, política e a música brasileira. Segundo ele, a Amazônia é esquecida pelo poder público e os músicos desvalorizados.

Qual a origem da guitarrada e a importância dela para o Brasil?
Para mim e muitas pessoas é de muita importância esse nosso ritmo da guitarrada, porque é um gênero que está pegando em toda parte. Tanto fora do Brasil quanto dentro, é uma música animada com um som muito bom para ouvir e dançar. Fico muito alegre e satisfeito, porque sou um dos propulsores da guitarrada no Pará. Fui o primeiro a gravá-la, num compacto duplo, em 1974.

O que te inspirou a tocar a guitarrada?
As músicas que vinham do Caribe. Sou de Abaetetuba, uma cidade do baixo Tocantins, a uns 60 km de Belém. Naquela época eu tinha um radinho de pilha, e ao sintonizar as frequências que vinham de Belém não conseguia, porque ficava uma chiadeira desgraçada. Então, eu buscava as outras faixas e escutava as músicas do Caribe. Quando comecei nessa vida tinha nove anos de idade, tocando banjo. Fui me inspirando naquelas músicas que chamavam lambada, gostava muito e ia tocando com o banjo. Depois passei a tocar bateria e percussão, e viajei a Belém. Aí veio o violão elétrico até empenado, que não tinha boca, e providenciei uma guitarra pra mim que não tinha pra vender. Mandei buscar em São Paulo. Foi assim que comecei e fui tocando o que eu gostava: essas músicas do Caribe.  

Olhando pra trás agora, como você vê a importância da guitarrada hoje na Amazônia?
Marcou uma cultura, e tem muita rapaziada nova agora que está seguindo esse caminho. Tempos atrás eram só uns três ou quatro que tocavam, mas agora tem uma nova geração que está seguindo a mesma trilha. Fazem o mesmo estilo que a gente fazia, só que muitas vezes eles não têm o mesmo mecanismo que a gente começou.

Como você enxerga a diversidade cultural e as músicas regionais?
Acho muito bom. Dei uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, que saiu na primeira página do Segundo Caderno, falando só no meu nome e vida artística. Falei sobre os ritmos, e ele disse para mim: “mestre, qual o estilo de música que você gosta?” Eu gosto de todos, pra mim não tem esse negócio desde que a música seja boa e tenha harmonia, melodia e ritmo. Letras e instrumental, a parte eletrônica não é muito a minha. Até disco de rock eu tenho. Não gosto de todos, mas tem alguns até bonitos. O rock nacional é muito bom, uma beleza. Mas o que eu gravo mesmo é estilo de guitarra, estilo cumbia, bolero. A guitarrada que a gente chama é aquela lambada antiga. 

O que você acha da música brasileira?
É muito boa, só que agora eles estão saindo da linha da nossa música brasileira. Estão criando estilos e letras que não têm nada a ver com a nossa cultura brasileira. Tenho 63 anos de vida artística e acho que agora tem uma rapaziada fazendo uns negócios que eu não aprovo. 

Tem alguma coisa a ver com a relação do mercado com a arte? A comercialização da cultura?
A arte é essa a nossa, cultural, mas o mercado é muito aquém. Porque hoje, com a situação que estamos atravessando no Brasil, já não existe tanto show pra gente fazer como era há alguns anos. Quando a gente chega não tem mais dinheiro pra patrocinar e antigamente a gente não parava. Era todo o tempo viajando fazendo show, mas agora constantemente tem tempo que a gente passa quase um mês sem fazer um show. É importante o apoio dos governos com políticas públicas também. Então, devido a isso, a nossa música está meio parada. Não os músicos, que estão em atividade, mas falta espaço para trabalhar. 

Qual a sua opinião sobre a política brasileira?
Essa política brasileira está numa situação que está quebrando todo mundo. Não só as empresas, como todos os negócios hoje em dia aqui no Brasil. Meteram a mão no nosso dinheiro tudinho, acabaram com tudo, em cultura, saúde e educação. Acabaram para o bolso deles, e acabou que ficamos sem nada praticamente. Se a gente vai fazer um show para o estado ou município, às vezes a gente até pode fazer com uma produção grande, mas não tem condições pra pagar. Já não viajo com a minha banda pra fazer show, vou sozinho, como fui a Havana, em Cuba e na Argentina. As passagens e os hotéis estão caríssimos, e tem o meu cachê, aí eu sou obrigado a viajar sozinho. E me dá um trabalho porque tenho que passar as músicas pra eles acompanharem, mas nunca fica igual à banda da gente. 

Os políticos então não incentivam a música tradicional?
Eles não estão nem aí, falo mesmo porque não tenho rabo preso. Os políticos não estão nem aí para a cultura nem pra nada aqui no Brasil. Eles estão pra eles, por isso estamos nessa situação. Com todos esses anos que tenho de estrada, vejo que o negócio nos últimos anos ficou nessa situação.  Tenho pena dos colegas músicos que dependem de música pra sobreviver. Hoje em dia você não pode viver de música como antes. Dava pra bancar todas as despesas da casa, filhos e estudo. Hoje, se você depender de música pra sobreviver, vai morrer de fome.

E essa questão do impeachment e os últimos governos? Você diferencia os partidos ou é tudo igual?
Hoje em dia é tudo igual. Como dizia minha avó, é tudo farinha do mesmo saco. Entra um e sai outro, e não muda nada. Não vou generalizar que todos os políticos são desse tipo. Uma minoria que quer trabalhar, e a maioria só pensa neles e na família. Mas eu espero em Deus, só ele pode dar um jeito de um dia melhorar essa situação pra nós e todos os trabalhadores brasileiros. 

E a proposta do Encontro de Culturas, acha interessante?
Estou achando muito bonito. Não só o tipo de encontro, como também a Vila de São Jorge. Hoje em dia no Brasil é difícil encontrar um lugar como esse preservado, porque você anda por aí e vê tudo padronizado com calçada e prédio, tudo moderno. As pessoas que moram aqui nos receberam muito bem, são muito legais, educadas, vêm falar com a gente, gostei muito. Isso pra mim é tudo.

O que a Amazônia significa pra você?
A Amazônia é nossa, mas nós podíamos aproveitá-la mais. Se realmente os nossos governantes olhassem pra nós... Mas não olham. Estão acabando e devastando, porque não era assim. Cada vez mais estão degradando e suas populações estão morrendo, ficando até perturbadas pela situação. Estão tirando os ribeirinhos e indígenas dos seus lugares. Logo eles, que são os donos da terra. Quando a gente chegou eles já estavam aqui no Brasil. Veja ali para o lado de Belo Monte como está a situação. Sempre ia pescar pra lá, no Parque do Xingu, e hoje o que você vê é uma tristeza. 

O que a canção e a música significam pra você?
A música é tudo na minha vida, nasceu no meu sangue. Não aprendi a tocar com ninguém, foi Deus que me ensinou. Hoje em dia toco diversos instrumentos, mas nunca tive professor. Nesses anos todos de vida artística nunca bebi bebida alcoólica, nunca fumei e não sou evangélico. Então pra mim música é tudo. Por isso, digo aos meus parentes que quando eu não puder mais tocar, acho que não vou demorar muito tempo aqui. Já pensou querer fazer uma coisa sem poder fazer? Na sala da minha casa em Belém é só instrumento. Só de guitarra eu tenho cinco. A música é minha vida. Espero que eu ainda tenha bastante tempo pra fazer aquilo que realmente gosto: levar alegria às pessoas. E que elas reconheçam o trabalho da gente. 

   

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