Mestre Zé de Vina
Cultura Tradicional

Mestre Zé de Vina

Com seus mamulengos de diversos tamanhos e cores variadas, Mestre Zé de Vina é considerado um dos mais vigorosos e férteis mestres do mamulengo da atualidade, conjugando a destreza de manipular com um notável senso de improvisação. Coordena o Centro de Revitalização e o Memorial do Mamulengo, em Glória do Goitá (PE).

Com seus mamulengos de diversos tamanhos e cores variadas, Mestre Zé de Vina é considerado um dos mais vigorosos e férteis mestres do mamulengo da atualidade, conjugando a destreza de manipular com um notável senso de improvisação. Já se apresentou em vários estados do Brasil e realizou turnês em Portugal e na Espanha, além de ter participado de diversos vídeos sobre a arte dos mamulengos. Coordena o Centro de Revitalização e o Memorial do Mamulengo, em Glória do Goitá (PE). Mestre Zé de Vina rejuvenesce e reescreve a tradição do mamulengo a cada novo espetáculo. E sabe como ninguém desvendar o fio misterioso da tradição, a ela incorporando sutilmente elementos da contemporaneidade.


Natural de Glória do Goitá (PE), um vilarejo no interior de Pernambuco, Mestre Zé de Vina é um dos criadores do grupo Mamulengo Riso do Povo, que também conta com a presença do Mestre Zé Lopes. Zé de Vina é considerado um dos mais importantes mestres mamulengueiros vivos no Estado. Seu grupo é conhecido por dar continuidade à arte dos bonecos, uma legítima tradição de artistas nordestinos. O talento e as técnicas do mestre resgatam o mamulengo pernambucano e reafirmam o estado como maior representante do teatro de bonecos populares do Brasil.

O resultado é um teatro divertido, que transmite conhecimento e mantém viva a tradição brasileira de fazer arte com bonecos. No repertório do Mamulengo Riso do Povo estão as brincadeiras A Fazenda do Coronel Mané Pacarú, As Presepadas do Casamento de Praxedes e o espetáculo Mamulengo Tradicional.

No Encontro de Culturas, em 2010, tivemos a honra de receber Mestre Zé de Vina, que ministrou uma oficina de produção de mamulengos. Começou com uma simples apresentação para que os presentes entendessem como as coisas funcionam, desde a voz até o improviso. "Os participantes, depois de se envolver com esse divertido universo passam a entender o verdadeiro significado da brincadeira", explicou.

Simpático, alegre e muito brincalhão, Zé de Vina é dono de uma sabedoria inquestionável. Sua memória é algo impressionante, digna de causar inveja a muitos jovens de 20 ou 30 anos. Ele lembra como se fosse hoje a época em que tudo começou, em 1952. "Aos meus 10 anos saía andando e acompanhando os mamulengos dos outros. Nisso ficava só observando como eram feitos, a maneira como eram apresentados. Aos 12 anos, eu já dava vida aos bonecos, falando e contando as histórias".


Ele descreve em detalhes fatos ocorridos há mais de 50 anos. São histórias, canções, versos, rimas e muitos roteiros utilizados em apresentações que atravessavam as noites pernambucanas até as cinco horas da manhã. Todos adquiridos com a malícia e a astúcia de um apaixonado pela arte de representar e entreter multidões.

Com o passar do tempo, foi se aperfeiçoando, aprendeu a confeccionar os mamulengos que são feitos a partir da madeira da árvore mulungu, típica de Pernambuco, escolhida pelos mamulengueiros há décadas devido à sua leveza e cor clara, que proporciona um acabamento satisfatório e não cansa os braços do manipulador. As etapas para a confecção de um mamulengo são: talhar a madeira, lixar, envernizar e pintar na cor preferida. Por último, vestir a roupa do boneco, o que fica a cargo de sua esposa. Um processo, lembra ele, que demora de dois a três dias.

O mestre criou sua própria companhia, a Mamulengo Riso do Povo, que passou a se apresentar em sítios, igrejas e festas de casamento para as mais variadas plateias, em qualquer lugar que fosse convidado.

Os anos se passaram e Mestre Zé de Vina tornou-se cada vez mais conhecido em seu estado, pela simpatia e pela bagagem cultural. Um pernambucano arretado, que sabe, como poucos, agradar diversos públicos. Nas cidades em que se apresenta, é um pouco de tudo: poeta, cantor, contador de histórias... Enfim, um roteirista ambulante capaz de descrever em poucos minutos um filme inteiro nos mínimos detalhes. Os mamulengos, é claro, sempre como as estrelas principais. "O que faz um mamulengo ganhar vida diante do povo é o ‘cabra’ ter o dom de fazer graça, contar piadas, criar rimas e histórias diferentes para cada personagem. É como conquistar uma moça".

Nesse processo, enquanto contribuía para a preservação de sua cultura, divertindo e educando o público por meio de seu alegre e majestoso teatro de mamulengos, Zé de Vina criou toda sua família. "Criei meus 14 filhos com o dinheiro de minhas apresentações. Às vezes até pintava outro tipo de serviço para trabalhar em diárias, mas aguardava ansioso o fim de semana para me apresentar com meus bonecos e minha banda”.

“Eita! Bem, meu mestre, vamo lá agora com fé em Deus primeiramente, alô rapaziada, todo mundo assistindo o nosso teatro de boneco de Mamulengo, nós aqui viemo fazer esse trabalho com muito prazer, alegria, não vamo cobrar nada a ninguém. Ô mestre, abre a porta d’água!” (fala do Mestre Zé de Vina anunciando o início da brincadeira).

   

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