Quando conseguiu ganhar seu primeiro trocado trabalhando, Seu Otávio logo correu para comprar um pacote de café, um de açúcar e dois cortes de pano, “incluindo um chitadinho”, para fazer um agrado à mãe. “Fia, a véia ficou alegre demais”, conta sorrindo. A lembrança diz muito sobre a essência desse homem nascido e criado em Vão de Almas, no Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga.
Com uma idade que volta e meia perde ou ganha um dígito por conta da incerteza dos documentos e de falhas da memória, Otávio continua seu caminho de trabalho duro, confiança e lealdade. Ele é um dos principais braços que ajudaram Juliano Basso a construir o Encontro de Culturas. É um grande porta-voz da comunidade Kalunga. “Foi Juliano quem descobriu nóis Kalunga”, gosta de contar. “Na época, vi aquele homem na romaria. Eu era cismado. Mas encostei e comecei a conversar”. A conversa rendeu um forró, que rendeu uma visita de Seu Otávio a São Jorge, que rendeu 20 anos de parceria.
Com toda humildade que lhe é peculiar, Seu Otávio conta que chegou em São Jorge pela primeira vez só com “umas notas verdinhas” ganhadas do pai. A prosa canta fácil, sem intervalos, muitas vezes atropelada. São muitos detalhes, muitas memórias. Ele levanta, gesticula, lembrando de cada gesto e cada passo que deu até chegar à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. “Me falaram pra ir reto ali, virar à direita, que daí eu ia ver um pé de bananeira. Aí era só puxar a porta assim e assim e entrar”.
Depois que entrou, nunca mais ganhou distância. Diz com gosto que foi quem trouxe todos os Kalungas que hoje trabalham na Casa. “Antes a gente tinha muito medo de gente de fora. Quando era menino eu agarrava na roupa da mãe quando via estranhos”, relembra. “Eu vim na frente. Os outros me agradecem. Se eu falar, kalungueiro vem”. Até os anos 1980, os habitantes do remanescente quilombola viviam bastante isolados da sociedade.
LETRAS E ROÇAS
“Estudar é tão bom, fia. Tô aprendendo aos pouquinhos a fazer as letra. Tô vendo jornal. Novela, não, porque é tudo mentira”, conta Seu Otávio, enquanto pega na caneta e desenha, orgulhoso, seu nome para mim. Desde que chegou em Brasília, há dois anos, retomou os estudos. Quando criança, diz que não aprendeu a ler nem a escrever porque os professores batiam muito com a varinha na hora de ensinar, botavam de castigo. “Daí não queria mais ir e meu pai já falava: ‘então bora pra roça’. E nóis ia”.
O perfil magro e as mãos grossas revelam todas as roças que Seu Otávio já abriu. Homem da terra, sabe as estações do ano que são melhores pra plantar e colher, conta do arroz e do milho que ano que vem vão brotar. Do futuro, só espera continuar girando folia no Kalunga – “giro qualquer uma” – arrumar um pé de chão onde plantar sua mandioca e viver ao lado dos filhos, que são quatro, já crescidos, e de alguma amada que ainda há de surgir.
Além de continuar vindo pra São Jorge vez ou outra, onde descansa e anda nas ruas como um vereador. Conhece todo mundo, sai apresentando os compadres e comadres que fez ao longo dos anos e não perde um convite. “Meu nome é pronto”, não cansa de repetir. Se Seu Otávio diz que vai, vai mesmo. Coisa de homem da roça, pra quem a vida é simples, feliz, e palavra e confiança são as coisas mais importantes que se pode conquistar.