“Vem o Xucuru no romper da madrugada”, era o verso que anunciava em samba de coco a chegada do terceiro grupo da noite de quarta-feira, 24 de julho de 2013, no XIII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O grupo Samba de Coco Xucuru de Ororubá, com Mestre Pirrila e seis integrantes, veio da Terra Indígena Xucuru, localizada no município de Pesqueira, agreste de Pernambuco, para fazer o público do Encontro de Culturas dançar o samba do coco, manifestação cultural resgatada pelo mestre dentro da comunidade.
O ganzá, triângulo, surdo, pandeiro e a pisada do coco contagiaram a quem assistia o show e transformou a apresentação do grupo em festa. As rimas que Mestre Pirrila comandava sempre tinham um toque de humor que arrancava o riso do público. No clima do samba de coco, o grupo até arriscou um improviso com a vila: “Quem é que é o dono do terreiro? É São Jorge guerreiro”.
O samba de coco funciona com um grupo em que existe um autor/poeta que faz as rimas e aqueles que respondem em coro. Todos juntos fazem a pisada que marca o ritmo do samba.
Para muitos não era a primeira vez que ouviam samba de coco, mas para a maioria era o primeiro contato com o grupo. “Não conhecia e é muito contagiante. Dancei muito”, compartilhou Larissa Bonfim. O show se estendeu por quase uma hora e, ao final, o público não escondeu o desejo de que a noite continuasse no ritmo do coco.
Pouco se sabe sobre a história do samba de coco do Xucuru, por isso, Antônio Ferreira, conhecido por todos como Mestre Pirrila, achou importante contá-la em entrevista:
Qual é a história do samba de coco Xucuru?
Samba de coco na nossa aldeia é uma tradição que já existia dos nossos antepassados. Essa cultura veio dos meus pais, meus avôs, meus tios. O samba de coco é uma tradição do povo Xucuru, que já existia, mas que os autores que cantavam há 50, 60 anos, morreram. Em 1999, eu participei de um grupo de samba de coco de Arco-verde, o Samba de Coco Raiz de Arco Verde. Então, foi através deles que eu aprendi e ensinei também o que era o samba de coco. Então, quando eu voltei para a aldeia (fiquei com eles por 2 anos), chamei meus filhos e as crianças e acabei criando esse grupo de samba de coco dentro da aldeia Xucuru. Na minha aldeia eu pedi uma explicação para o pessoal mais velho, que já conhecia o que era o samba de coco, e eles explicaram que antigamente, quando era época de São João e outras folias, eles acendiam uma fogueira e convidavam os amigos e ali amanheciam o dia cantando o coco. Tinha o autor e tinha aqueles que respondiam. Então, não tinha os instrumentos que existem hoje: surdo, triângulo, ganzá e pandeiro. Se faltar um instrumento desses não fica bonito. Eu criei esse samba de coco, resgatei uma cultura morta dentro do setor.
Como você começou?
Em 1999, um pessoal de Arco Verde chegou em nossa aldeia e perguntou para o cacique, que é meu cunhado: “aqui não tem quem cante samba de coco?”. E ele respondeu que tinha um cunhado doido (risos). Então aprendi com eles (o samba de coco). E daí surgiu esse dom que Tupã me deu, Deus me deu. Já cantei com artista formado.
E como você faz a sua poesia?
Se eu tenho a capacidade de fazer a minha letra, eu não pego a letra de ninguém. Quem canta não pode fazer verso que a gente chama de pé-quebrado, tem que rimar, porque se não rimar fica feio. Um dia eu cheguei em uma escola onde tinha umas telhas velhas e eu estava com dor de cabeça, fiquei pensando e fiz um verso:
“As teinha dessa escola,
Uma delas tem verstúrio.
Hoje eu cheguei doente
E quero sair com saúde”
O que mais te inspirou?
Teve um rapaz que ia beijar uma moça, mas ela virava o rosto. Então, fiz um verso sem ele perceber:
“Nunca se iluda com um beijo,
Que um beijo nada traduz.
Simplesmente foi com um beijo
Que Judas traiu Jesus”
Outra vez, uma mulher me falou: “mestre, existe mulher feia no mundo?”. Eu disse: “ninguém é feio. Eu sou feio, mas eu não considero que eu sou feio”. E ela me pediu que fizesse um verso sobre isso:
“Não existe mulher feia,
Seja preta ou seja branca ,
Empregada ou uma patroa .
Se não serve para o marido,
Serve para outra pessoa"
E já sofreu preconceito por tocar música tradicional?
Uma vez me convidaram para participar de um evento e uma moça falou: “tanto artista branco e bonito e colocar aquele negro no palco”. E aí eu disse: “ é porque às vezes o branco não sabe o que o negro sabe”.
Como funciona esse trabalho de transmissão da cultura do samba do coco para as crianças?
O cacique juntou todas as lideranças e achou que eu tinha que transmitir essa cultura ensinando para as crianças. Meu trabalho dentro das aldeias é feito com crianças de 49 escolas das 24 aldeias do Xucuru. Eu ensino como as crianças podem criar versos, ensino a tocar instrumentos, a pisar o coco. Porque o coco tem que ser pisado pra ficar mais bonito.
Você considera importante a transmissão desse saber?
Acho importante, porque eu já estou velho. Amanhã ou depois eu posso morrer, mas aí já fica alguém no meu lugar. Eu não quero deixar é que minha cultura morra. Às vezes, quando eu vou pra mata fazer coco e me concentrar parece que uma pessoa ensina. Depois, eu chego em casa e ensino meus filhos. E eles me perguntam: “o que ensina ao pai?”, e eu respondo “a natureza, meu filho”.
Qual é a sua satisfação em fazer samba de coco?
Não é todo mundo que nasce com o dom de uma coisa. Eu podia ter outros tipos de profissão, porque eu sei outras cantorias, eu canto toada, música de violeiro. Mas o samba de coco eu achei melhor, porque é minha cultura e eu ensino as crianças.Então é uma tradição que eu faço com orgulho. Eu agradeço a Tupã, ao apoio do meu cacique, de toda liderança, das professoras... Quando eu chego nas escolas todo mundo me abraça e é muito importante pra mim.
O que você acha desse momento de diversidade cultural que o Encontro de Culturas promove?
Não tenho nem palavras. Fico feliz de ter sido procurado, por ver que o evento se interessa por nosso trabalho, nossa cultura. E eu estou sentindo aqui, junto com esse povo maravilhoso, que é que nem cantar em casa.
E o grupo viaja muito para se apresentar?
A gente já foi pra São Paulo, Recife, Caruaru... Estivemos em Garanhuns, de lá chegamos em casa, nem dormimos, nem comemos e já viajamos pra cá. E com certeza se pintar outra viagem a gente já vai estar lá mostrando nossa cultura. Existe lugar que não dá valor. Tem gente que não entende. Ainda tem gente que me chama de doido (por fazer samba de coco). Não sou doido, eu sei fazer e faço por amor.
Você conheceu a Aldeia Multiétnica hoje, o que achou?
Hoje, a natureza me trouxe para aquela aldeia. Eu achei bonito demais aquilo ali. É dentro de uma mata. Para um pajé que entende, a força está ali. É uma aldeia que tem que ter muito respeito pela natureza. Pelo que eu vi, toda força do Brasil está ali.