O percussionista, cantor, compositor e pesquisador de Santarém (PA) Silvan Galvão desenvolve um trabalho baseado nos ritmos regionais amazônicos, como o carimbó, marabaixo, batuque e o lundum marajoara, explorando uma linguagem universal nos arranjos e inserindo-os, assim, no contexto contemporâneo.
No início da carreira, Silvan acompanhou como percussionista grandes artistas da Amazônia, como o violonista Sebastião Tapajós, Pinduca e Nilson Chaves, e fez disso sua escola. Participou como produtor musical de grandes festivais regionais, como o Festival “Çairé de Alter do Chão” e o “Festribal” de Juruti.
Desde 2013, Silvan Galvão se dedica ao seu trabalho autoral. Lançou seu primeiro álbum em 2013, Segredos Amazônicos, todo instrumental, com a participação de Sebastião Tapajós. O CD deu origem ao DVD homônimo, gravado na praça do Mirante, em Santarém.
Em 2014, Silvan passou a mesclar música instrumental e canção, e a alternar residência entre Santarém e Rio de Janeiro. No Rio, com o intuito de divulgar seu trabalho e a música amazônica, criou o projeto “Puxirum”, um baile dançante onde se apresenta ao vivo acompanhado de sua banda, mesclando o trabalho autoral com músicas de Pinduca, Dona Onete, Mestre Verequete, entre outros ícones da música popular amazônica. No “Puxirum”, Silvan recebe vários convidados, entre DJs, cantores e instrumentistas cariocas e nortistas.
Em 2016, Silvan Galvão lança pelo selo Ná Music, e com patrocínio do Banco da Amazônia, seu segundo CD, Tambores que Cantam, com canções autorais, e o videoclipe da faixa “Puxirum”. No mesmo ano, ganhou o título de Mestre de Carimbó pela região do oeste do Pará.
Silvan Galvão já esteve no festival Tapajazz (PA), Sesc Boulevard (PA), Festival Arte Pública, Sesi in Jazz Festival, Festival Nacional de Cultura Popular da UFF, Festival Sotaque Carregado, Festival Rio Afora, Circo Voador, Sala Baden Powell, Sesc Tijuca, Parque das Ruínas, Sesc Ramos, Centro Cultural da Justiça Federal e em várias casas noturnas cariocas onde realizou a Festa Puxirum (Centro Cultural Carioca, Espaço Multifoco, Arco do Teles, Gafieira Moderna, entre outras).
PESQUISA E OFICINAS
Silvan Galvão também é pesquisador e realiza um importantíssimo trabalho didático. Em 2008 e 2009, viajou pelo Norte/Nordeste do Brasil, interagindo com diversas manifestações tradicionais do Pará, Tocantins, Pernambuco, Amazonas, Maranhão e Amapá. Ampliou sua pesquisa também em países sul-americanos, como Peru, Bolívia e Uruguai.
A partir de suas pesquisas, Silvan Galvão passou a ministrar a oficina "Ritmos Tradicionais Amazônicos”. As oficinas deram origem a um projeto didático, inaugurado em 2015: a oficina permanente “OPÃ - Orquestra de Percussão Amazônica”, que está sendo desenvolvido na conceituada Escola de Percussão Maracatu Brasil.
ENCONTRO DE CULTURAS
Silvan Galvão participou do XVII Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2017.
Em entrevista ao repórter do Encontro, Eduardo Sá, ele conta a história do carimbó no Brasil e critica o esquecimento do País em relação à Amazônia. Fala também sobre as políticas públicas de fomento à cultura e analisa a política brasileira. Para ele, a mídia tem manipulado as informações sobre a crise no país e é responsável por deseducar o povo brasileiro.
Qual é a origem do carimbó?
O carimbó tem origem indígena, com influências africanas e europeias. Na época da colonização, esses três povos se encontraram e o carimbó é fruto disso. Proveniente do Norte, ele veio do Pará e no início era praticado com cunho religioso, em homenagem ao santo padroeiro São Benedito, o santo dos negros e dos escravos, e também ao Divino Espírito Santo, numa determinada época do ano. Com o tempo, o gênero foi ganhando mais força e se popularizou. Virou motivo pra outras comemorações e perdeu um pouco do religioso. Mas até hoje tem um grupo em Santarém Novo que faz um carimbó mais tradicional e religioso. Ele não apresenta sensualidade nos movimentos, os homens tocam todos de paletó longo, que cobre até o pescoço.
Na maioria dos outros lugares é diferente: tem o carimbó rural, o praiano, o do Marajó... Cada um com suas particularidades. Cada carimbó traz na sua música e no seu toque a dança, a poesia, a vivência e toda a história do povo de sua região. Nas letras eles falam isso. As indumentárias falam muito do seu lugar, assim como os tambores, a instrumentação. Então é muito mágico, e o jeito de dançar e tocar é muito diferente de um lugar pro outro.
O carimbó é muito rico, porque vem de todas essas regiões profundas do Brasil, transpirando tudo o que a cultura de cada local tem na festa, música e dança. Com tantos esquecimentos e abandonos que a região Norte tem, principalmente o interior, a visibilidade e o interesse das pessoas de outros estados e países pelo carimbó é muito importante.
A valorização à diversidade cultural corresponde ao que deveria ser?
Quando estamos falando de cultura, acho que começa de dentro. Na própria comunidade onde se pratica o carimbó se tem muitas barreiras, porque a grande mídia, a internet, o celular e a televisão seduzem muito. E a grande mídia vai contra não só o carimbó, mas contra todas as manifestações de cultura popular no Brasil. Você não a vê mostrando as raízes do povo brasileiro. É uma programação comercial, montada, frágil e descartável; não é de raiz, não tem uma história, um contexto e alicerce. Cada vez mais é difícil furar as grandes barreiras da mídia pra mostrar de fato como a cultura popular é.
Mas o que está acontecendo agora e surtando um efeito contrário é que a grande mídia está tendo uma overdose de tudo isso. As pessoas querem mais. Pessoas que não são superficiais e buscam além, pesquisam. É aí que a cultura popular ganha força. Tem uma juventude neste cenário se abrindo para conhecer de fato o Brasil. Costumo dizer que a Amazônia e o Pará são amputados do País, porque pra você ir à capital já é um problema. Não é questão de estrada, é de preço mesmo: você consegue ir ao exterior e não a Santarém. Os valores são muito altos.
Então vamos lidando com todas essas dificuldades que temos. Por isso é muito legal ter encontros, festivais de cultura, como este, onde as pessoas vêm beber da fonte. É muito importante a diversidade que eles promovem, com gente de várias regiões. As pessoas fazem uma viagem pra todos os locais num lugar só. É de suma importância. Inclusive os artistas que vêm, se encantam. Sempre que participo de algum encontro saio encantado com uma cultura diferente, que não conhecia. É preciso lutar para ter festivais e encontros como este. É um contra-ataque a esse turbilhão de merda que a mídia joga pra gente.
Você falou de mídia na questão da visibilidade, mas e as políticas de fomento à cultura?
Os editais poderiam ser simplificados ou mais específicos, pensando que a maioria do pessoal da cultura popular não tem experiência ou perícia pra se inscrever. Fazer um projeto pra edital é complicado. Para os artistas da cultura popular, que moram em regiões de difícil acesso, é muito complicado encontrar um produtor que entenda disso. Deveria ter mais capacitação pra esses mestres. Existem alguns prêmios que permitem áudios e vídeos, compreendendo a oralidade da cultura tradicional, mas eles são pequenos. Os editais que de fato garantem uma boa estrutura e verba são mais complicados. Tem que fazer planilha, prestação de contas... É algo que infelizmente a maioria não sabe fazer. Como estou morando no Rio hoje, tenho acesso a produtores experientes e consigo, mas e quem não saiu dos interiores?