Towara Benin
Cultura Tradicional

Towara Benin

O Towara Benin surgiu em 1992, a partir da junção de duas trupes de dança: Towakpon e Agora, respectivamente com 18 e 10 anos de experiência (na época da apresentação no Encontro de Culturas, em 2011). O Towakpon era especializado em ritmos do Sul do Benin e o Agora nos do Norte. A ideia da junção veio com o objetivo de criar um grupo que pudesse abranger toda a nação e integrar os ritmos. “Towara” quer dizer "poder". É o poder da cultura do Benin.

O Towara Benin surgiu em 1992, a partir da junção de duas trupes de dança: Towakpon e Agora, respectivamente com 18 e 10 anos de experiência (na época da apresentação no Encontro de Culturas, em 2011). O Towakpon era especializado em ritmos do Sul do Benin e o Agora nos do Norte. A ideia da junção veio com o objetivo de criar um grupo que pudesse abranger toda a nação e integrar os ritmos. “Towara” quer dizer "poder". É o poder da cultura do Benin.

O Benin é um país da África Ocidental e sua cultura baseia-se no vodu e no orixá. O trabalho do Towara Benin é voltado à pesquisa do panteão vodu, que destaca as danças e as músicas dos terreiros e das savanas tropicais. Desde 1996, o grupo faz turnês internacionais, já tendo passado por toda a Europa, Rússia, Estados Unidos, Japão, entre outros.

Segundo Marcel Zounon, presidente da Associação Artística e Cultural Towara, a principal missão do Towara Benin é desenvolver pesquisas voltadas à cultura beninense, como o vodu. Sobre a presença da percussão na cultura do país, o presidente explicou: “A percussão é muito importante, porque em cada acontecimento da sociedade, seja enterro, casamento, aniversário, qualquer data especial, cada coisa tem como objeto central a percussão”.

Zounon explicou ainda que a cultura da percussão é ancestral e, por isso, tão importante. “É uma coisa ancestral, que antigamente agregava muita gente. Você toca o tambor para chamar o seu povo, para você falar alguma coisa pra eles. Você toca o tambor pra falar que você vai comer. No tambor, a base vai muito mais longe do que o agudo. Então, a base é o essencial da percussão. E por isso é tão importante, porque antigamente chamávamos todo mundo desse jeito e organizávamos os passos e as danças”, completou. 

ENCONTRO DE CULTURAS

Depois de uma semana interagindo com outras culturas e ensinando sobre a sua por meio de oficinas e vivências, o grupo Towara Benin se apresentou no palco do XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, em 2011, na última noite do evento. Os 12 beninenses que vieram ao Brasil eram liderados por Marcel Zounon, presidente do grupo.

Cinco músicos, quatro dançarinos e três dançarinas. Foi essa a formação que deixou o público boquiaberto em frente à Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. O grupo completo é formado por 70 pessoas, entre adultos e crianças.No palco, sons e movimentos se sobrepunham, unidos a um figurino cheio de cores fortes e estampas caleidoscópicas. Ao longo de uma hora e meia, o Towara Benin apresentou oito danças e ritmos característicos de sua cultura: Gueledê, Dan, Héviosso, Dogda, Atchina, Blekete, Sakpata e Masse.

Como a apresentação foi focada nas danças, Marcel Zounon falou um pouco sobre as regiões nas quais alguns ritmos são tocados e cantados no país.  “Os ritmos e as manifestações são numerosos. A respeito dos ritmos, temos o Tchengoumê, encontrado no centro do Benin, o Akong, dos palácios reais da República do Benin,o Gueledê e Massê, vindos do sudeste do país, Adjobo e Abagdja, do sudoeste, e o Téké, Sessemou e Kiarou, encontrados no norte do Benin. Pode-se dizer que os ritmos variam quando vamos do sul ao norte do Benin, passando pelo centro”, explicou.

O Grupo começou o show apresentando o Gueledê, a representação de uma cerimônia especial da comunidade Yoruba Nago. “O Gueledê é essa sociedade de máscaras, ainda totalmente mantida pelas mulheres. Posso dizer que é uma das sociedades tradicionais mais sólidas, mais solidamente ancoradas nas nossas tradições, e guardadas pela mulher: a chamamos Iya N’ La, que quer dizer a mulher primordial, a mulher mais velha da sociedade”, comentou Zounon. Desde 2001, o Gueledê é considerado pela Unesco como patrimônio oral e imaterial da humanidade. Durante a dança, os dançarinos utilizam máscaras que representam figuras de animais e cantos Yorubas. Também é uma dança de fertilidade e abundância para a comunidade Yoruba Nago do Benin.

Em seguida, o grupo apresentou o Dan, que é uma dança da divindade da fertilidade. É a esta divindade que os beninenses do Sul do país dedicam seu coração quando têm algum evento importante. A peculiaridade da divindade está no fato de que, tendo obtido o que pedem, é necessário oferecer tudo de volta, correndo o risco de perder tudo aquilo o que obteve há pouco tempo. 

A dança mostrada em seguida foi a Héviosso, dança da divindade do céu, da chuva e dos raios. Esta divindade tem a característica de castigar os homens de atitudes ruins como, por exemplo, os que praticam o roubo, a violência e o estupro. Ela denuncia os maus comportamentos do ser humano, dos homens que habitam a Terra. A quarta dança foi o Dogda, executada pelos cavaleiros do antigo reino do Dahomey (República do Benin) durante o retorno triunfante depois de uma expedição. A dança mostra a coragem das mulheres guerreiras, as amazonas.

Seguindo a apresentação, o grupo apresentou a Atchina, uma dança da Héviosso, a divindade do céu, da chuva e do raio. Atchina é outra representação da dança Héviosso, que também poderia ser chama de Tchango no dialeto yorubá. A sexta dança foi o Blekete, da divindade da água (Mamiwata) e da cola (Golo Vodoun). As duas divindades protegem as comunidades e lhes permitem obter a riqueza e a felicidade. Os ritos levam em conta o perfume, o talco e a cola para enriquecer as divindades que, em retorno, lhes concedem a proteção e a abundância.

As duas últimas danças mostradas pelo Towara Benin foram a Sakpata e o Massê. A Sakpata é a divindade da terra e das doenças, sobretudo, a varíola. Esta divindade permite os antepassados levem as doenças endêmicas e epidêmicas para longe do círculo de conhecidos. Por fim, o Massê é uma dança executada ao longo da zona litoral do Benin, na cidade que é a capital constitucional do país, Porto Novo (a cidade de Conotou, no entanto, é a sede do governo e a maior cidade do Benin). O Massê é dançado para mostrar as cenas domésticas cotidianas como as refeições e o divertimento. É uma dança amada pelas pessoas velhas.

Ao final da apresentação, os beninenses começaram a chamar o público para subir ao palco e dançar junto a eles. Nesse momento, os músicos, que estavam ao fundo, já haviam se juntado aos dançarinos no centro do palco. Depois da confraternização, o Embaixador do Benin no Brasil, Isidore Monsi, também juntou ao Towara Benin. Sucinto, porém emocionado pela presença de seus compatriotas, o embaixador, entre outras poucas palavras, falou: “Hoje eu não sou o Embaixador do Benin no Brasil, hoje o Towara Benin é quem cumpre esse papel”.

Além da apresentação no palco, o Towara Benin participou de diversas atividades durante o Encontro de Culturas. Sobre o evento, Marcel comentou: “Esse festival em São Jorge é muito enriquecedor porque permite a povos que não são muito conhecidos esse encontro e essa mistura. Ele me permitiu conversar sobre a diversidade das expressões culturais com a Giselle Dupin, do Ministério da Cultura no Brasil, que veio para o Encontro. Ele é um elemento fundamental hoje, sobre os quais os países em desenvolvimento devem se apoiar, para que eles possam ter um desenvolvimento durável”.

A respeito do que lhe chamou a atenção no Encontro, o presidente do Towara Benin acrescentou: “Durante este festival, também vimos bandas de música moderna, vimos exposições, vimos objetos de diversas nacionalidades, de diversos grupos étnicos do Brasil, do Benim e do outros lugares. Creio verdadeiramente que, através deste festival, toda a parte culinária também foi destacada e isso me permitiu enxergar toda a riqueza da gastronomia brasileira e de poder compará-la a outras gastronomias de outros lugares”.

E finalizou: “Pensamos totalmente que esse festival de São Jorge se inscreveu na caminhada dos homens até a paz, a mistura dos homens, e até a unidade do mundo. E somos orgulhosos disso e apoiamos este festival. Pedimos que esse festival se perpetue e seja multiplicado pelo Brasil todo, para que, verdadeiramente, o Brasil seja o berço da continuidade até o desenvolvimento cultural”.

OFICINA

Os integrantes do grupo africano Towara Benin ministraram oficinas de percussão e dança no XI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Apresentando alguns de seus instrumentos e vários movimentos que integram suas performances, os músicos e dançarinos usaram o espaço para ensinar e interagir com o público. As oficinas ocorreram na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e na Praça do Artesão, nos dias 25 e 27 de julho de 2011.

Fluentes em francês, língua oficial do Benin, os africanos visitam a Vila de São Jorge acompanhados da intérprete francesa Alice Serié, que vive em Brasília. Outra pessoa que tem colaborado nas traduções desde que os beninenses chegaram, no último final de semana, é produtor do Encontro de Culturas, Pedro de Castro Guimarães, que também fala o idioma.

Durante as oficinas, o presidente da Associação Artística e Cultural Towara, Marcel Zounon, fazia sinais que comandavam a apresentação do grupo. A dinâmica seguida pelos africanos nas atividades seguia a ordem de apresentar os instrumentos, demonstrar os ritmos, ensinar os participantes a tocar e dançar e, por último, confraternizar com o público. O presidente é quem decide o que o grupo vai fazer, por isso, deve ser consultado primeiro quando alguém vai falar com o músicos.


Beninenses ensinam participantes da oficina a tocar instrumentos. Foto: Fredox Carvalho

O dançarino e coreógrafo Patrice H. Ahoussou explicou durante as oficinas que, ao longo de quase vinte anos tocando e se apresentando juntos, os artistas adaptaram as danças e os sons ancestrais à realidade atual da cultura do país. Nesse tempo, eles elaboraram cerca de trinta coreografias incorporando danças ritualísticas.

Nas oficinas, os beninenses fizeram questão de apresentar e descrever os instrumentos que trouxeram a São Jorge. O que causou maior interesse dos participantes foi o Gon, um pequeno instrumento de ferro que tem o formato de um pombo. O som é emitido por meio das batidas de uma vareta, também de ferro. Existe o Gon macho e o Gon fêmea. Patrice explicou que todas as apresentações do grupo começam com o Gon macho, que está no cio, “chamando” o Gon fêmea.

Os tambores trazidos pelos músicos africanos são feitos de madeira e pele de girafa. O coreógrafo, no entanto, informou que a pele usada pode ser de outros animais, como o antílope. “O tambor é feito com a pele de animal que é encontrada na hora”, contou. Os instrumentos variam de tamanhos e sons, sendo que para a apresentação no Encontro de Culturas, eles trouxeram os tambores mais antigos.

Para Marcel Zounon, o final da oficina foi o momento mais interessante. “Foi no final que eu vi que o objetivo foi alcançado, quando ocorreu essa troca entre várias comunidades, nós do Benin com o pessoal daqui. Eu gostei muito”, contemplou. A intérprete Alice Serié explicou ainda que por ser o presidente da Associação, ou seja, o representante político do grupo, Marcel tem uma postura mais contida, mas adorou a experiência.

VIVÊNCIA

A aproximação entre as várias manifestações culturais é um dos principais objetivos do Encontro de Culturas Tradicionais. A cada ano, mais culturas se reúnem em São Jorge para conviverem e trocarem experiências. Em 2011, essa aproximação cultural uniu dois continentes: África e América do Sul.

Em uma vivência entre os representantes da Comunidade Quilombola de Santa Rosa dos Pretos (MA) e o grupo Towara, do Benin os participantes puderam apreciar um pouco da cultura de cada grupo através das danças, cantos e batuques. Os primeiros a se apresentarem foram os maranhenses, com seus tambores de crioula e de minas. Os africanos e demais visitantes que também acompanhavam atentamente a apresentação, aos poucos, foram interagindo e entrando na dança, aumentando cada vez mais a roda.

Na sequência foi a vez dos africanos do grupo Towara se apresentarem. As tradições trazidas pelos representantes de Benin geravam muita curiosidade, despertando a atenção dos quilombolas e demais participantes. Assim como o grupo brasileiro, as dançarinas africanas convidaram a todos para aprender os passos de sua cultura.

Para estreitar os laços entre Brasil e  África uma conversa entre o grupo evidenciou as semelhanças e diferenças entre as manifestações. Assuntos como ritmo, religião e semelhança entre os povos foram as principais pautas, todas acompanhadas atentamente. As semelhanças descobertas durante o bate-papo encantaram os dois grupos, o que ficou claro nas trocas de olhares, acenos de cabeça e comentários entre os participantes.


Conversa entre quilombolas e africanos na Cavaleiro de Jorge. Foto: Anne Vilela

Em uma breve conversa com a Agência de Notícias Cavaleiro de Jorge, representantes dos dois grupos deixaram suas impressões sobre a vivência:

De maneira breve, como é a comunidade de vocês?
Anacleta Pires da Silva (Quilombo de Santa Rosa dos Pretos): Hoje, nós do Maranhão, já temos o reconhecimento da nossa comunidade, um nome específico das nossas áreas, que chama-se Comunidade Quilombola. Isso foi através da luta dos movimentos sociais  e pelo reconhecimento memorial que se encontra nas pessoas mais velhas nos nossos quilombos.

Marcel Zounon (Towara): Meu grupo se chama Towara e venho do Benin, um pequeno país da África Ocidental. O Benin é um dos países mais democráticos de toda a África. A nossa cultura é baseada no vodun e no orixá. O trabalho que desenvolvemos é um trabalho de pesquisa do panteão vodun para destacar as danças e as músicas dos conventos e das savanas tropicais. Nós viemos ao Brasil para fazer um intercâmbio com nossos parentes que estão aqui. Para nós, o Brasil é como nosso continente, nosso país, porque nossos pais estão aqui e nós estamos cientes disso.

O que vocês acharam desse encontro do Brasil com a África?
Marcel: É muito enriquecedor porque as culturas se juntam e se parecem também. E o povo brasileiro que nós encontramos é um povo muito entusiasta, solidário, cooperativo e muito sociavel. Eu me vejo no meu país.

Anacleta: Para nós que estamos aqui no Brasil, ele é muito enriquecedor e muito fortalecedor da nossa própria identidade. Nós também tivemos a oportunidade de visitar um pouco da África, indo pra Guiné Bissal e Cabo Verde. Para o quilombo é muito forte essa forma de repasse oral da cultura. A gente tem aqui no Brasil o nome de afro-brasileiros,  então é uma mistura dos africanos com alguns costumes do Brasil, aonde ainda está muito viva a questão do sangue afro, porque no quilombo é uma só família. E isso nos fortalecesse muito quando a gente se vê nessa mesma pele. Mesmo o Brasil tendo uma grande influência europeia, nosso quilombo é muito puro. Então, isso pra nós, é um fortalecimento da nossa identidade aqui no Brasil.


Integrante do grupo Towara ensinando alguns passos da música africana. Foto: Anne Vilela

Quais as semelhanças e diferenças entre as culturas de vocês?
Marcel: As semelhanças são numerosas. Por exemplo a questão dos instrumentos, eles são muito parecidos e a forma de dançar também, porque eles tem essa forma de dançar com o joelho dobrado, assim como nós, e o ritmo dos tambores vai  acelerando e ficando cada vez mais intenso, e isso é igualzinho à nossa cultura. Quanto as diferenças, tem a língua, que é um problema bem grande, porque quando você olha agora, um fala inglês, um fala francês, um fala alemão, mas essa é a única diferença entre nós.

Anacleta: Uma questão muito forte é a da língua. No quilombo, não falamos a verdadeira língua portuguesa, nós temos coisas que a gente não consegue, nós temos umas considerações na fala formal, porque no nosso quilombo a gente fala a língua informal, aí quando a gente sai pra um encontro assim é que a gente tenta ao máximo falar a língua portuguesa correta, porque nós ainda temos uma grande parte de fala da África. Inclusive, nós temos uma reza em latim.Como ele disse, a diferença é muito pouca, mas quanto a bater os instrumentos, ainda está a memória viva traga de lá. Os nossos cânticos, assim como eles, são ritmados. Tudo que a gente fala tem uma letra da música,  e na letra a gente têm os versos, com os versos a gente está usando um meio de comunicação para com as pessoas, que as vezes as pessoas nem sabem o que a gente está falando, por questão de ainda manter essa língua dos nossos antepassados. África pra nós é pele, é sangue, é alma.

É difícil preservar a tradição do seu povo?
Marcel: Não, de maneira alguma. A tradição está muito viva e muito forte, então ela se transmite muito facilmente de geração em geração, toda a tradição vodun, orixá, as tradições dos rituais, do crescimento até o casamento, até o enterro, tudo é preservado de geração a geração, apesar dessas novas religiões que surgiram ao longo do tempo pra tentar dividir tudo isso. Apesar disso, a cultura continua muito viva e sendo transmitida.

Anacleta: Eu sou de um quilombo que ele, mesmo com todo o sofrimento, nunca deixou no esquecimento as culturas tradicionais como o tambor de crioula e o tambor de mina. Com toda aquela dificuldade que aconteceu com nossos antepassados aqui no Brasil, a Santa Rosa dos Pretos é um dos quilombos maranhenses que mantém todas suas tradições vivas. E existe uma preocupação porque nós temos muitos quilombos que hoje não têm em prática as suas culturas, as suas religiões, só tem na teoria. É uma dificuldade manter as tradições, até mesmo por questões financeiras, porque o pensamento da gente, como está vivo na memória das pessoas, é fácil de resgatar, mas a comunidade tem dificuldade de se deslocar a um outro quilombo para conhecer, manter viva as culturas. Mas a gente tem em mente que será possível dar continuidade a esse trabalho, principalmente depois da nossa visita à África.


   

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